TUDO VALE A PENA SE A ALMA NAO E PEQUENA
Acima do gosto de me dar a conhecer, há que contribuir para usar a internete como veículo de crescimento. Com rigor, com respeito, não fugindo à especulação fundamentada, não fugindo à irreverência. Limitado pelo meu saber e pela minha imaginação, e querendo de tudo tratar, preciso de vocês. Agradeço os comentários, apelo à humildade do que pergunta para saber mais. "To be and not to be is the answer" porque sabemos hoje que cada coisa contendo em si o seu contrário.
sexta-feira, maio 27, 2011
sexta-feira, dezembro 12, 2008
A CONSTRUÇÃO DO FUTURO
José Miguel Júdice, no seu articulado no Público de hoje, presenteia-nos com a desesperança a que nos acostumaram alguns homens-bons, com uma novidade extremamente importante: ele não é só o Portugal, mas o mundo todo…
Quando senti o desespero de um Miguel Sousa Tavares e depois de um José Pacheco Pereira perante a pobreza do povo português − a pobreza da atitude, a pobreza cultural, que a outra pobreza provém desta − disse com os meus botões: “Tarde, mas lá descobriram!”. E contudo sentia o quadro incompleto. Incompleto porque via que noutros locais havia também os podres que cá havia. Mas, dizia para comigo, por cá exagera-se na quantidade; é a pobreza deste povo!
Ora o articulado de José Miguel Júdice ajudou-me a contornar este amargor; trouxe-me ao de cima o que já intuía. Estamos em presença de um fenómeno global e o recente desespero de gentes na Grécia é um seu epifenómeno, como epifenómenos foram os tumultos dos bairros em torno de Paris, e epifenómenos são os terrorismos e outros. Mas concluir que o que daqui virá serão regimes dignos dos infernos dantescos é um temor mais literário que científico, já que o simples respigar de meia dúzia de exemplos históricos não avaliza tal conclusão.
É claro que os períodos de profundas mudanças históricas como o que parece estarmos a viver, são conturbados e sacrificam por vezes muitas vidas. São como o dilúvio que limpa a terra e a acomoda para sementeiras mais promissoras.
Mas onde buscar o horizonte que falha a José Miguel Júdice? Já não há o político Marx (ou só o há para alguns “religiosos” e para alguns diletantes) e esta democracia não nos serve: de imperfeita passou a eticamente tóxica. Penso que teremos de o buscar na reinterpretação do quadro da evolução histórica das sociedades humanas, tal como o propõe o agora sociólogo Marx, mas procurando como guia “uma verdade mais ampla”: não já a do seu modo de produção, mas antes a da tecnologia subjacente à crescente complexificação das sociedades humanas. Este guia para a interpretação da história dos homens já foi proposto, nos anos 1930, pelo P.e Teillard de Chardin, que até propôs uma designação para a sociedade planetária: a noosfera.
Hoje é-nos mais fácil reconhecer que a sucessiva complexificação das sociedades humanas assentou basicamente nas tecnologias de informação e comunicação de que os homens foram dispondo ao longo da sua história. A fala permitiu aos homens formas de organização impensáveis entre os símios. A escrita permitiu regular os impérios. A imprensa, esse primeiro mass media, fez surgir Voltaire. E em cada estágio as sociedades humanas foram-se organizando de formas que podiam ser cada vez mais complexas e simbióticas.
Os desenvolvimentos dos meios de comunicação de pessoas e bens e, sobretudo, de informação, ao longo do século passado, por exemplo, criaram uma tal necessidade de tratamento de informação, que o computador se expandiu e teve o reconhecimento universal graças à sua capacidade de processamento de informação diversificada, quando tinha sido inventado para processar cálculos científicos. E a internete vem por sua vez potenciar a comunicação e colocar novas questões ao seu tratamento. Veja-se aqui o sucesso do motor de busca Google.
E é essencialmente neste quadro resultante do aumento exponencial dos saberes (da informação convenientemente tratada e assimilada), no quadro da planetarização, no quadro da mudança colocada pelo constantemente novo, no quadro de sociedades cada vez mais velhas, no quadro da exigência de respeito para com os até agora desrespeitados e, também, no quadro da necessidade de perseverar o planeta, que temos de procurar soluções realmente inovadoras para construir o futuro.
Não há obviamente soluções únicas e definitivas, o que limitaria a nossa índole criadora e a nossa capacidade de sofrer e de crescer. As soluções que adoptarmos ajustar-se-ão melhor ou pior ao rumo da complexificação das sociedades, criando assim situações mais harmónicas ou menos harmónicas ao nosso bem-estar.
E temos de ter a consciência de que as respostas válidas serão grande parte das vezes de rotura com o passado, de rotura com grande parte dos poderes e dos interesses instalados. E temos de ter a coragem de por elas lutarmos.
Importa que muitos compreendamos este quadro do evoluir humano; e que muitos desses muitos se empenhem na perspectivação do futuro nessa óptica, na busca de processos para o construir. E digo muitos, mas mesmo muitos, porque hoje somos todos heróis, porque esta é a atitude intelectual moderna.
Nos tempos que correm, a informação do que se passa noutros locais e o que fazem os diversos responsáveis (ou irresponsáveis) está ao alcance de todos. As nossas formas de organização social clássica revelam-se então inadequadas, porque não nos conformamos, e bem, com o que sabemos (ou julgamos saber). A democracia política representativa já não serve. A família já não é a base da organização social, como muitos ainda pretendem, porque está esboroada. Já não há homens que saibam tudo ou quase tudo: cada um é necessariamente cada vez mais especialista e os problemas são resolvidos em equipa (a interacção é imensa). Já pomos em causa a nossa cidadania: já nos sentimos cada vez mais cidadãos do mundo.
Estamos no tempo de inventar respostas para estas questões, de procurar novas formas de vivermos e de convivermos. Pode acontecer, por exemplo, que a administração de Obama contribua com avanços significativos para potenciar novas formas de democracia recorrendo à utilização da internete.
Outros procurarão e ensaiarão respostas várias e partilharão as suas experiências.
É hoje possível, definitivamente, sermos muitos, mas mesmo muitos, a compreender estas questões. E então saberemos mais facilmente como lhes dar resposta, tornando inútil o pessimismo de José Miguel Júdice.
Para isso é vital a eficaz utilização dos meios de comunicação, sejam os mass media, seja a internete.
quarta-feira, novembro 05, 2008
NE ME QUITTE PAS
O José Eduardo ofereceu-me hoje, na Universidade Popular, a letra da mais bela canção que se escreveu na língua de Voltaire:
Ne me quitte pas
Il faut oublier
Tout peut s'oublier
Qui s'enfuit déjà
Oublier le temps
Des malentendus
Et le temps perdu
A savoir comment
Oublier ces heures
Qui tuaient parfois
A coups de porquoi
Le coeur de bonheur
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Moi je t'offrirai
Des perles de pluie
Venues de pays
Où il ne pleut pas
Je creuserai la terre
Jusqu'après ma mort
Pour couvrir ton ccorps
D'or et de lumière
Je ferai un domaine
Où l'amour sera roi
Où l'amour sera loi
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Je t'inventerai
Des mots insensés
Que tu comprendras
Je te parlerai
De ces amants là
Qui ont vu deus fois
Leurs coeurs s'embraser
Je te raconterai
L'histoire de ce roi
Mort de n'avoir pas
Pu te rencontrer
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
On a vu souvent
Rejaillir le feu
D'un ancien volcan
Qu'ont croyait trop vieux
Il est paraît-il
Des terres brûlées
Donnant plus de blé
Qu'un meilleur avril
Et quand vient le soir
Pour qu'un ciel flamboie
Le rouge et le noir
Ne s'épousent-ils pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Je ne vais plus pleurer
Je ne vai plus parler
Je me cacherai là
A te regarder
Danser et sourire
Et à t'écouter
Chanter et puis rire
Laisse-moi devenir
L'ombre de ton ombre
L'ombre de ta main
L'ombre de ton chien
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Jacques Brel
Pode ouvir-se/ver-se o videoclip em :
http://www.dailymotion.com/lightning49/video/x18038_jacques-brel-ne-me-quitte-pas-1959_music
segunda-feira, outubro 27, 2008
CRÉDITO
“Dar crédito” significa também, pese embora aos caloteiros e aos que vivem de os fomentar, acreditar, confiar.
Há umas décadas atrás, lembro-me de o general de Gaule defender que o valor do dinheiro devia assentar no padrão ouro. Ou seja, por cada nota em circulação, deveria estar depositada no banco central uma certa quantia de ouro que constituía a garantia do seu valor. Entretanto vieram outros que disseram que faria mais sentido garantir a nota com a participação nas divisas de outros países depositadas no mesmo banco. Vieram depois empresas privadas que imprimem legalmente, imagine-se!, não notas, mas cartões de crédito e de débito que valem mais que um montão de notas.
A procura de bens pode ser estimulada ̶ oh publicidade! ̶ . Mas daí à compra vai um passo crucial: é preciso liquidez (dinheiro) ou crédito (que não é já o acreditar, o confiar que se vai pagar). Pelo parágrafo anterior seria logo fácil concluir que a efectivação da compra se faria nomeadamente pela via do crédito. Mas o Sr. Greenspan e as suas réplicas por esse mundo fora, quiseram ignorar a evidência na busca da glória (?). Foi necessário acontecer a crise e agora, os bancos centrais têm de injectar milhares de milhões ̶ dos justos e dos pecadores ̶ em liquidez para tentar que o barco não naufrague!
A questão é contudo mais funda. É ética. Exemplifique-se com o conúbio entre estímulos à procura e a concessão do crédito.
Vai para uns quatro anlos, quis adquirir na Rádio Popular (na loja do Norteshopping, em Matosinhos) uma série de electrodomésticos no valor de mais de três mil euros, para equipar a minha nova habitação. Como nunca tinha comprado nada ̶ para além da habitação ̶ recorrendo a crédito, solicitei que me fizessem o desconto dos juros, já que existia um anúncio referindo a possibilidade de pagamento em doze meses sem quaisquer encargos. Fiquei surpreendido quando me informaram que não podiam fazer qualquer desconto. Perante a minha insistência, de quem não compreendia porque se “oferecia” o montante de juros e não se fazia o correspondente desconto a quem quizesse pagar a pronto, lá acabaram por me fazer um desconto de ... 0,5%!
Depois deste episódio outros idênticos vieram. Estou ainda a pagar o funeral de minha filha, porque recusando-se a Servilusa em me fazer o desconto correspondente aos “trinta meses sem juros” que propagandeava, optei pela via "das prestações". Também na compra de um PDA na Worten Mobile tomei idêntica opção pelas mesmíssimas razões.
A indignação foi-me crescendo. Imaginava os excessivamente bem pagos gestores yuppies do Sr. Belmiro de Azevedo e de outros a fazer o “patrão” lucrar de alguma forma invía. Então assaltou-me a ideia de que a coisa passava pelas empresas de concessão de créditos ao consumo, empresas normalmente de bancos, que concediam crédito. A coisa, no meu espírito, devia passar-se assim.
O comercial de uma dessas empresas ia ter com o gestor yuppie, com diploma de MBA provavelmente, mas com pouca ética certamente, e propagandeava-lhe as vantagens que teria em pôr os seus clientes a recorrer ao crédito da sua empresa. Ademais, livrava-se do problema de garantir a cobrança. Claro que o juro seria mais elevado, mas quem o pagava era o cliente e não a loja (cadeia de lojas)... No seguimento da negociação sobre o valor da taxa de juro a praticar, e para garantir a competitividade dos produtos do nosso yuppie, o dito comercial proporia então praticar um juro um pouco mais baixo desde que a loja (cadeia de lojas) não fizesse qualquer desconto, na tentativa de garantir que todos recorreriam à compra a crédito.
E desta forma tive de me enredar com esta gente. Ainda pensei em ir para a imprensa e bradar pelo atropelo da minha liberdade (constitucional?) de comprar ou não a crédito. Mas a imprensa... Não é mesmo que toda a gente compra a prestações?
Um comentador do Expresso deste fim de semana escrevia sobre a perda da virtude nos nossos dias, como a razão funda da crise. Que um senhor com um nome estrangeiro de que não me lembro assim o dissera. Reconforta-me tal reconhecimento.
quinta-feira, outubro 02, 2008
A ACTUAL CRISE FINANCEIRA COMO RESULTADO DA CRISE DA ÉTICA
Deve ser o mercado a resolver a actual crise financeira?
O mercado funciona como sempre funcionou: até um certo ponto. Para além dele a regulação é necessária, porque ele parece não se auto-controlar.
Por um lado, não se pode ignorar os ensinamentos da teoria da evolução aplicada ao processo de desenvolvimento das sociedades, ensinamentos que levam a considerar o mercado como o mecanismo fundamental para uma constante adaptação ao progresso.
Por outro lado, os modelos de simulação estocástica actualmente utilizados parece terem vindo a evidenciar que o mercado totalmente livre é gerador de desigualdades que ferem os valores humanos da justiça social.
Havendo, assim, que temperar o mercado com mecanismos de regulação, estes mecanismos podem advir do poder central ou da sociedade em si. Dada a normalmente pouco eficiente regulação conduzida pelo Estado, parece-me que o ideal é que as sociedades encontrem em si aqueles mecanismos de regulação. E advogo que tal se faça por um retorno à ética.
O mercado não funciona? Mas o que poderá funcionar num mundo em que povos passam fome e são chacinados por déspotas protegidos por grandes interesses económicos internacionais? O que poderá funcionar num mundo em que em que a Madona aufere em três concertos o que a população de S. Tomé produz num ano? O que poderá funcionar num mundo em que em que transferências futebolísticas atingem largas dezenas de milhões de euros? O que poderá funcionar num mundo em que em que os gestores ganham somas astronómicas pela obtenção de enganadores resultados de curto prazo? O que poderá funcionar num mundo em que os homens ainda não aprenderam a conviver na ausência de Deus e na ausência desse outro deus que foi o marxismo?
Os agentes do mercado são mulheres e homens que agem consoante a cultura que os condiciona. Se não existe consenso quanto à necessidade de existirem padrões éticos de convivência social e mecanismos que os divulguem e vigiem a sua aplicação, é natural que o mercado passe a reflectir os comportamentos anómalos.
E não restrinjo os padrões éticos às questões económicas e financeiras, obviamente. Na realidade, as consequências dos avanços exponenciais do conhecimento e da demografia obrigam-nos a uma nova atitude perante a ética: à humildade de que ela nunca estará acabada, tendo constantemente de ser deduzida dos princípios que formos considerando como duradouros.
Há que ser abrangente, que pugnar por uma sociedade toda sã. E porque a inverdade é a pior ferrugem da ética, há que rejeitar frontalmente muitos de pretensos padrões éticos, que anquilosadas religiões e alguns grupos sociais procuram sustentar para além do razoável. Estou a falar do fim da família como base das sociedades no mundo ocidental, estou a falar do reconhecimento da existência das tendências homossexuais, estou a falar da proibição da eutanásia, estou a falar em substituir o perseguir da enganosa igualdade pela promoção da complementaridade das diferenças e do respeito pelo outro, por exemplo.
Pegando na questão da família, a mero título de exemplo, parece-me que, no mundo dito ocidental, sendo ela uma instituição cada vez mais débil, é perigoso pretender continuar a assentar nela a construção de todo o tecido social. Enquanto não existirem outras instituições que a possam substituir de uma forma credível em tal papel, conviria que não persistir em lhe atribuir uma importância que ela já não tem.
O persistir em conservadorismos enganadores é como defender o criacionismo e o mercado em simultâneo, esquecendo que este é uma consequência óbvia da perspectiva evolucionista. E tal persistir é tão funesto para a construção da verdade quanto o é a precipitação frequente de muitos ditos progressistas.
A ética é pois a questão de fundo. Os revolucionários dirão que a menorização da crise pela intervenção dos Estados iludirá essa questão de fundo e defenderão que só um acentuado trauma social propiciará as condições requeridas para construir o futuro. Os reformistas defenderão o intervencionismo na actual crise, supondo que ela será lição bastante para se irem gradualmente introduzindo as alterações sociais requeridas.
segunda-feira, agosto 25, 2008
Neste fim de semana, no semanário Expresso, o Sr. João Carlos Espada, atira-nos com uma muito sua crónica estival.
Num clube de gentlemen londrino, que suponho que frequenta, resolveu-se a inquirir o barman e a recepcionista sobre a quase permanente obrigatoriedade de no clube se usar gravata. Constatou o cronista, com uma satisfação que lhe transbordou para as entrelinhas, a surpresa daqueles funcionários perante a questão, quando responderam: "Mas é um clube de gentlemen, senhor!". Assim mesmo, com ponto de admiração e sem "s" de plural, que gentlemen já o é.
Parece-me a mim que por detrás de uma gravata poderá estar um homem bom ou estar um bandido. Parece-me a mim que um homem sem gravata também poderá ser um homem bom ou poderá ser um bandido. Parece-me a mim, que não sou gentleman, agora no singular!, que ao Sr. João Carlos Espada lhe fugiu o pé para o chinelo, como era tradição dizer-se em tais casos. Parece-me a mim que ele não perceberá ao que venho. Mas estou certo de que os autênticos gentlemen, com ou sem gravata, perceberão.
sábado, julho 12, 2008
quarta-feira, julho 09, 2008
O bastonário da Ordem dos Advogados vem hoje clamar contra os números excessivos dos que demandam os cursos de direito. Pareceu-me entrever no seu falar um mais que ultrapassado bastonário da Ordem dos Médicos, gentil de seu nome, que para a sua corporação defendia ideias similares. Corporações e extremos ideológicos que se tocam.
Mário Soares compara Guantanamo aos campos nazis. Guantanamo é realmente um insulto à democracia dos EUA e do Mundo. Mas este contribuir para banalizar o horror nazi conduz, como ele devia saber, a atitudes como a do Presidente iraniano quando afirmou que o holocausto nunca existiu. Será da idade?
sexta-feira, junho 27, 2008
Insisto hoje no que dizia aquando das últimas eleições autárquicas. Com a subida sustentada do petróleo, não se justifica o investimento num novo aeroporto. As dificuldades cada vez mais evidentes das companhias de aviação em todo o mundo têm a ver com a oferta que será cada vez mais excedentária. Num futuro não muito distante, só os voos de longo curso terão justificação económica e ambiental**.
Os trajectos de menor duração serão efectuados por comboio. No mesmo sentido irá o transporte de mercadorias. Bem faríamos se em lugar do aeroporto de Alcochete investíssemos no TGV de passageiros e mercadorias o mais avançado possível. Um percurso Lisboa-Madrid (Barajas) e um Aveiro-Madrid (Barajas). Vigo e Porto seriam ligados em alta velocidade a Aveiro e a Lisboa.
Quer o Sr. Sócrates, quer a Sr.ª Ferreira Leite andam enganados (?) e a enganar-nos. E que não se escudem em impossíveis estudos técnicos. Esta é uma questão política e de bom senso.
O primeiro-ministro francês tem quase pronto o pacote de medidas sociais e económicas que, pretende, restituirão à França a sua competitividade no teatro Europeu e mundial. Obviamente que uma receita liberal.
Em alturas de grandes mudanças, como as que estão a produzir com a escassez de recursos a nível planetário e as fortes restrições impostas pelo meio ambiente, o sistema político mais flexível, de mais fácil adaptação continua a ser o liberal. Sistema político que necessita, é certo, de uma muito maior dose de ética do que o abuso intervencionista do Estado permite. O tatcherismo francês?
Faria sentido que os habitantes de Freixo de Espada à Cinta tivessem o mesmo peso político que os habitantes de Lisboa ou que os do Porto? Então porque hão-de os alemães e os franceses e outros países maiores deixar que a Irlanda ou Portugal ou outro país pequeno ter o mesmo peso que político que eles na UE?
As pessoas percebem isto, mas não percebem porque os políticos o não assumem. E os políticos sabem que assim é.
quarta-feira, junho 11, 2008
Somos o produto histórico do comando de uma burguesia marítima que, depois de D. João III, só admitiu um político e, mesmo este, porque houve a fatalidade de um terramoto.
domingo, junho 01, 2008
terça-feira, maio 27, 2008
quarta-feira, maio 14, 2008
segunda-feira, maio 12, 2008
terça-feira, abril 22, 2008
O termo igualdade surge-me aqui desajustado. Todos os porcos são iguais, mas uns são mais iguais que outros. É este o engodo da igualdade ao longo de toda a história. E vejo pessoas inteligentes com um inexplicável apego, diria quase religioso, pela igualdade!
Ora a vida é a desigualdade, é o diferente. Darwin ensinou-nos o constante e incontável surgimento de novas espécies. E ensinou-nos que só sobrevivem as que se adaptam ao seu entorno. E é isto que torna a vida um maravilhoso desafio.
Outra lei natural, a da construção do complexo, a da oposição à entrópica desarmonia, tem sido também desafio do homem. Que procura gerir, coordenar o agir das partes diferentes.
Mas entre o constante surgimento do diferente e a necessidade humana de o coordenar, a lei da preguiça colocou a excepcional igualdade matemática. Alguém, algures, ciente deste humano horror à descoordenação, à discórdia, ao sofrimento, propôs desatinadamente que se o resolvesse com a busca da igualdade.
A inadequação do termo ao fim visado foi utilizada para justificar muitos e muitos milhões de mortos ao longo da história dos homens.
E porque é conveniente, recordo aos que buscam o equilíbrio, que logo a seguir à revolução francesa, Robespierre eliminou muitos milhares de homens com o pretexto igualitário. E recordo-lhes ainda os milhões que Estaline mandou eliminar com o mesmo pretexto. Não idolatrem o termo. Mudem-no, que os símbolos devem servir a harmonia.
Filósofos houve que meteram ombros à tarefa de explicar porque igualdade não queria dizer igual, esquecendo que o igual é a excepção, o limite, o abstracto. E depois de múltiplos argumentos, contra-argumentos, ajustes, parece terem concluído pelo óbvio: pelo princípio igualitário que, dizem, estipula o dever-se consideração ao sofrimento e à felicidade alheios.
Por outras palavras: as coisas e os seres não podem ser tratados como iguais, pois não o são, felizmente, digo eu, mas têm de ser respeitados. E aqui está o termo correcto: respeito. Respeito por tudo o que nos cerca, esse tudo que nos faz e que também somos.
Desta feita, quero celebrar a continuada desigualdade, a continuada diferença, pilares da vida e do universo. E quero celebrar o continuado respeito a que elas nos obrigam.
Liberdade, respeito e fraternidade, sim!
sábado, fevereiro 09, 2008
Não me via o anseio de ir? Não me via o mudar o peso de perna, a impaciência da timidez? Ou via e queria afastá-la?
Disse-me que aos nove anos servia a dias para ajudar a mãe, e que teve sonhos, e que os perseguiu a pulso. Disse-me que teve, que deixou de ter e que novamente se tinha erguido a pulso. E disse. E disse. Tecera a sabedoria com a sensibilidade, com a experiência, com o intelecto. E queria, inexplicavelmente, dizer-se em quinze minutos. De enfiada. Uma alma linda, feita com a quarta classe e os sonhos e os filhos e os afectos e a vontade, numa ânsia de partilha.
Oscilei entre o que ouvia e o temor de ser o que queria ouvir. As duas coisas escorregando numa timidez que se me erguia, a do medo de não poder ou de não saber retribuir.
Entrou uma freguesa e ela foi-se a aviá-la. Calçada acima, não percebi se estava ou não a fugir de um encantamento.
domingo, janeiro 13, 2008
São as elites (ou as vanguardas) quem normalmente orientam os povos para as decisões de fundo que antecipadamente tomaram.
Nunca se perguntou se Portugal queria integrar ou se queria aprofundar a sua relação com a Europa, em momentos tão ou mais cruciais que o actual, sem que se tivesse ouvido o actual alarido.
O Tratado de Lisboa é demasiado elaborado para ser compreensível pela maioria das pessoas.
O texto do Tratado de Lisboa é praticamente igual ao da Constituição Europeia.
A probabilidade de, ao referendar o Tratado em vinte e sete países, haver um que se opusesse, por causas que nada tinham a ver com o Tratado em si, como aconteceu com o não francês à Constituição Europeia, é apreciável. O prejuízo daí resultante seria grande para Portugal e para a maioria dos países da União Europeia.
O enraízamento da noção de cidadania europeia faz-se mais pela vivência do dia a dia - o que tem sido ignorado por muitos responsáveis europeus - do que pela mera discussão de decisões integradoras. Mas esta discussão não é contudo negligenciável, quer em termos de substância, quer em termos da formalidade que introduz no processo democrático da construção europeia.
Sócrates comprometeu-se eleitoralmente a fazer o referendo.
Sócrates comprometeu-se durante a sua presidência da União Europeia, a não o fazer.
... ?
Não me recordo de mais argumentos relevantes que tenham sido utilizados nos últimos tempos na discussão pública da questão referendária. Perante estes parece-me ser possível construir diferentes opiniões, segundo a forma de ser e o interesse de quem o faz.
quinta-feira, janeiro 10, 2008
Mal. Nenhum teve a sensibilidade para compreender que a demasiada desigualdade de rendimentos é um empecilho ético à democracia. Questão que se coloca na grande maioria das democracias ocidentais e que as corrói. Mas em Portugal mais, como em tantas outras coisas, para nossa desdita.
Depois, A. Barreto e José M. Júdice – porque são sempre os mesmos? os outros também querem ganhar dinheiro! - aparecem justificando aquela mesmíssima opinião, com o Estado a poder recorrer a maior percentagem do IRS nestes casos, se assim o entender. O Estado isto, o Estado aquilo. Serão alguma coisa sem o Estado? É o Estado quem faz a democracia? E ao mesmo tempo defendem que o Estado não deve impor a moral?!
Quanto a Cavaco, não sei se abordou a questão por razões da ética democrática, se o fez para ou por "ser bonzinho". Mas disse bem. Honra lhe seja feita!
Viajo solitariamente pela internete. Virtualmente como quando viajo também realmente.
E li que amar é o estar presente. Sempre. Presente espiritualmente.
E penso que o espiritual e o virtual já se sobrepõem ao real donde emanaram. E também que sou tudo e que tudo sou eu. E assim sendo não me posso conhecer.
terça-feira, janeiro 01, 2008
Depois do desgosto causado pela pequenez dos envolvidos nas politiquices em torno do BCP, da CGD e do Banco de Portugal, em crise criada pelos próprios gestores e aprofundada naturalmente pelos seus comparsas políticos, ocorreram-me, no primeiro duche deste ano que se inicia, duas ou três suspeições sobre o que talvez possamos esperar dele.
Suspeito que Cavaco Silva continuará a dar um apoio discreto a Sócrates.
A Sócrates, para ter uma nova maioria absoluta em 2009, para poder implementar a tão temida reforma do aparelho público. Temida em grande parte pelos senhores dos partidos políticos, muito provavelmente com os do PS à cabeça. A popularidade necessária, conquista-la-á com a implementação de medidas mais populares e mais visíveis, para desgosto do Sr. Meneses, visando sobretudo cimentar e expor a bondade do que até agora fez.
Suspeito que Filipe Meneses continuará na embrulhada em que se meteu, continuando a esforçar-se por desempenhar o papel do líder a abater após as eleições de 2009. Papel que os designados por barões do seu partido tinham atribuído a Marques Mendes. Suspeito, aliás, que estes últimos senhores já se começaram a aperceber de que a troca de figurantes lhes favorece as intenções.
Suspeito(!) que Jerónimo Sousa continuará a dizer verdades que todos sabemos, e algumas mentiras em que continua a acreditar piamente, sem acrescentar ideias realistas sobre o como agir para melhorar este mundo.
E mais não suspeito.
sábado, dezembro 01, 2007
“O empobrecimento súbito de famílias habituadas ao bem-estar é cada vez mais sentido. Isabel Jonet, presidente do Banco Alimentar Contra a Fome, refere que 30% de todos os pedidos de ajuda são feitos por pessoas com rendimentos acima da média nacional.”
Expresso, 1 de Dezembro de 2007
A fome mais a vergonha de a ter. Ambas pela mão da vertigem do consumo.
Consumo não contido, antes promovido.
A herança de séculos: a burguesia marítma a “comer as migalhas que caem da mesa da Europa”. A partidocracia, a “alta finança”, a (des)construção civil, a vigarice e o demais.
O aumento e a democratização do saber. O bottom up: “Que mil flores floresçam”. A rede. A decadência da Europa top down, da Europa centralista de Napoleão.
A globalização e os “vasos comunicantes” entre países ricos e países pobres.
A poluição e a contaminação do mundo, e do que escrevo.
quarta-feira, novembro 28, 2007
No meu pensar, o PC era uma procura, postiça ou artificial, da correcção e respeito para com os outros, escamoteando a investigação aprofundada das questões em causa. Tratava-se da busca da igualdade de género, sem cuidar de averiguar aquilo em que pode existir e aquilo em que é de perseverar e aprofundar a diferença; tratava-se do combate à xenofobia, ocultando que os principais xenófobos são os governantes que descuram a criação de condições para a inserção dos imigrantes; tratava-se de “respeitar” a democracia, evitando a necessidade de medidas firmes para a manter no longo prazo; etc; etc.
Aqui há uns tempos, em conversa ajantarada com alguns colegas, cheguei à conclusão de existir uma extensão semântica do PC, que me era alheia. Referi eu ter-me constado que o político X teria recebido uma pasta com uns dinheiros (destinados ao partido?), quando um dos meus colegas, num tom notoriamente PC, se pretendeu afastar de tal boato(?). Senti-me um imperdoável malandro por dar seguimento a tais boatos(?).
O tempo passou, mas este episódio insistiu em perseguir-me, como se algo de dissonante existisse. Debalde procurei convencer-me que tal se devia à minha sensação de culpa pela boatopropaganda.
Um dia destes fez-se luz: o PC convém a muitos políticos para encobrir as suas manigâncias. A técnica é simples: ao transformar-se a manifestão de uma suspeita na manifestação duma acusação, aquela passa a ser “politicamente incorrecta”, inadequada para ser transmitida.
De acordo com o ex-Presidente da República, Dr. Jorge Sampaio, em Portugal não haveria mais que uns 10% de políticos corruptos. PC!
Valha a verdade, até simpatizo com o Sr. Dr. Jorge Sampaio e, que me conste, o colega a que acima aludi não é figura da política. Para além disso, nesta extensão semântica, o PC também se revela postiço. Serve os desonestos, ilude os bacocos.
terça-feira, agosto 14, 2007
Chorei depois de falar com a memória que tenho de ti. Recordei o dia em que me deste um abraço especial, um longo e estreito abraço. Nunca o esqueci. Atribuí o repetir da sua lembrança a uma certa angústia, à angústia de não ter sabido ou não ter podido corresponder-lhe.
Hoje percebi que me abraçaste muito para além desse meu entendimento. E, por isso, chorei.
Sei agora que acreditaste então ter-me compreendido. Que juntaste bocados do meu kharma passado e que acreditaste teres-me visto. Que sentiste uma compreensão nítida e desejada do meu ser, uma compreensão de tudo o que o justificava a teus olhos. Que julgaste possuir-me. E daí a imensa solidariedade e todo o amor de filha naquele longo abraço.
São de júbilo as minhas lágrimas. E publico-as. E quero louvar-te a constante demanda dos que tomaste como amigos. A demanda da amizade incondicional.
terça-feira, junho 26, 2007
A leitura do prólogo feito por J. L. Borges à obra Mystical Works, de E. Swedenborg[1], homem que considera um dos mais brilhantes súbditos da Carlos XII, sugeriu-me duas questões.
A primeira tem a ver com o paralelismo que faz entre cabalistas e Swedenborg, que consideram cada homem como o universo inteiro, ou seja, um espelho de Deus, feito à sua imagem e semelhança, como esclarece. Recordo-me de Pessoa, quando constata nada (poder) ser, mas conter todos os sonhos do mundo... E, afirmam os discípulos, Siddartha Gautama já o dizia mais de dois mil anos antes, pretendendo que a viagem ao nosso interior nos traz o conhecimento do universo.
Oh Heráclito! Tudo muda? Parece haver verdades que transcendem o próprio tempo.
A outra questão é a de Borges chamar a atenção que, para Swedenborg, não basta ser justo para obter a salvação. Há também que ser inteligente e que ser artista, pretendendo-se com este último atributo referir a posse de uma elevada sensibilidade e a capacidade de a exprimir. Damásio diria que os dois últimos quesitos são as consabidas vertentes racional e emocional da inteligência, pelo que bastava então alegar somente a necessidade desta.
A salvação resultaria assim do ser justo e do ser inteligente. Sendo contudo a inteligência necessária ao procedimento recto, ela seria o principal pilar da salvação.
Pessoalmente parece-me que, quer Swedenborg primeiro, quer Borges depois, esquecem a necessidade da simplicidade para se alcançar a salvação. Falo daquela simplicidade que é fruto da sabedoria e da humildade e, sobretudo, do imenso trabalho que ela requer.
sexta-feira, maio 25, 2007
Ontem jantei com o passado. Com amigos ou conhecidos que era suposto já não ver há umas dezenas de anos. Um generoso leitão, acompanhado segundo os costumes, leitão que eu nunca vira, acompanhou-nos enquanto pôde, até se ir, digamos, esgotado.
Fui para a cama pesado. Devo ter escrito, noite adentro, enquanto cochilava, uns dizeres. E de manhã dei comigo a pensar que a guerra é mais filha da memória e que a paz é mais filha do esquecimento. Não sei se estou mal disposto, não sei se estou esperançoso.
domingo, maio 20, 2007
Veneza parada na água e no tempo. No anoitecer da chegada, de supetão, malas por desfazer, desaba uma tempestade prenha de relâmpagos. E fizemos amor na janela aberta sobre a ria mar…
Poderia não teres sido tu. Poderia perder-se a cumplicidade que também fazia o nosso amor. Então, seria diferentemente belo. Mas sempre belo.
domingo, abril 22, 2007
1. Salão nobre da Câmara de Matosinhos, onze e três quartos. Era suposto Eduardo Lourenço tecer algumas considerações sobre as ditas leituras.
A sala está meia cheia, em quarto minguante. Resultado de um marketing que só parece funcionar para o celulóide político como noutras terras pequenas por essa Europa fora? Sim, não nos inferiorizemos: por lá também há gente pequena como por cá (embora talvez em menor proporção). Mas Eduardo Lourenço merecia mais.
Ele discursa uma prosa poética sobre o tema durante uns quinze ou mais minutos. A perfeição do que ouvia desviou-me a atenção do tempo. E para gáudio da parca e arrebanhada plateia, disse que fora em Matosinhos que vira o mar pela primeira vez.
Guilherme Pinto, o autarca presidente do concelho, disse pouco, exerceu bem o atributo da simplicidade, ou esta será mesmo da sua natureza, mas ficou-lhe bem.
2. Biblioteca Florbela Espanca e centro cultural anexo, pelas catorze e trinta.
Uma exposição de desenhos, uma de acrílicos com colagens e uma de lindos olhares em caras negras fotografadas. Nem um catálogo sobre o que se podia ver...
Uma mesa redonda em que o tema era o da viagem escrita de Jacques Kerouac, On the Road. Exceptuando a seriedade e a poesia de Ondjaki, foi a vulgaridade, o improviso e a piada fácil e tosca. Uma afronta à criatividade e à honestidade. O medo de que persistam em insultar a minha inteligência, afasta-me decididamente de ir a outras conferências.
sábado, abril 07, 2007

Gostava de escrever na água, com os olhos, os milhares de páginas que rasguei antes de as ter escrito.
Gostava de escrever na água, com a razão, o que fica da busca que me faço, do tudo e do nada que sou.
Gostava de escrever na água, com o coração, os meus sonhos e o meu ser, mais os encontros e os afagos das húmidas musas.