segunda-feira, outubro 27, 2008

CRÉDITO


“Dar crédito” significa também, pese embora aos caloteiros e aos que vivem de os fomentar, acreditar, confiar.


Há umas décadas atrás, lembro-me de o general de Gaule defender que o valor do dinheiro devia assentar no padrão ouro. Ou seja, por cada nota em circulação, deveria estar depositada no banco central uma certa quantia de ouro que constituía a garantia do seu valor. Entretanto vieram outros que disseram que faria mais sentido garantir a nota com a participação nas divisas de outros países depositadas no mesmo banco. Vieram depois empresas privadas que imprimem legalmente, imagine-se!, não notas, mas cartões de crédito e de débito que valem mais que um montão de notas.


A procura de bens pode ser estimulada   ̶  oh publicidade!   ̶ . Mas daí à compra vai um passo crucial: é preciso liquidez (dinheiro) ou crédito (que não é já o acreditar, o confiar que se vai pagar). Pelo parágrafo anterior seria logo fácil concluir que a efectivação da compra se faria nomeadamente pela via do crédito. Mas o Sr. Greenspan e as suas réplicas por esse mundo fora, quiseram ignorar a evidência na busca da glória (?). Foi necessário acontecer a crise e agora, os bancos centrais têm de injectar milhares de milhões   ̶  dos justos e dos pecadores   ̶  em liquidez para tentar que o barco não naufrague!


A questão é contudo mais funda. É ética. Exemplifique-se com o conúbio entre estímulos à procura e a concessão do crédito.


Vai para uns quatro anlos, quis adquirir na Rádio Popular (na loja do Norteshopping, em Matosinhos) uma série de electrodomésticos no valor de mais de três mil euros, para equipar a minha nova habitação. Como nunca tinha comprado nada ̶ para além da habitação ̶ recorrendo a crédito, solicitei que me fizessem o desconto dos juros, já que existia um anúncio referindo a possibilidade de pagamento em doze meses sem quaisquer encargos. Fiquei surpreendido quando me informaram que não podiam fazer qualquer desconto. Perante a minha insistência, de quem não compreendia porque se “oferecia” o montante de juros e não se fazia o correspondente desconto a quem quizesse pagar a pronto, lá acabaram por me fazer um desconto de ... 0,5%!


Depois deste episódio outros idênticos vieram. Estou ainda a pagar o funeral de minha filha, porque recusando-se a Servilusa em me fazer o desconto correspondente aos “trinta meses sem juros” que propagandeava, optei pela via "das prestações". Também na compra de um PDA na Worten Mobile tomei idêntica opção pelas mesmíssimas razões.


A indignação foi-me crescendo. Imaginava os excessivamente bem pagos gestores yuppies do Sr. Belmiro de Azevedo e de outros a fazer o “patrão” lucrar de alguma forma invía. Então assaltou-me a ideia de que a coisa passava pelas empresas de concessão de créditos ao consumo, empresas normalmente de bancos, que concediam crédito. A coisa, no meu espírito, devia passar-se assim.


O comercial de uma dessas empresas ia ter com o gestor yuppie, com diploma de MBA provavelmente, mas com pouca ética certamente, e propagandeava-lhe as vantagens que teria em pôr os seus clientes a recorrer ao crédito da sua empresa. Ademais, livrava-se do problema de garantir a cobrança. Claro que o juro seria mais elevado, mas quem o pagava era o cliente e não a loja (cadeia de lojas)... No seguimento da negociação sobre o valor da taxa de juro a praticar, e para garantir a competitividade dos produtos do nosso yuppie, o dito comercial proporia então praticar um juro um pouco mais baixo desde que a loja (cadeia de lojas) não fizesse qualquer desconto, na tentativa de garantir que todos recorreriam à compra a crédito.


E desta forma tive de me enredar com esta gente. Ainda pensei em ir para a imprensa e bradar pelo atropelo da minha liberdade (constitucional?) de comprar ou não a crédito. Mas a imprensa... Não é mesmo que toda a gente compra a prestações?


Um comentador do Expresso deste fim de semana escrevia sobre a perda da virtude nos nossos dias, como a razão funda da crise. Que um senhor com um nome estrangeiro de que não me lembro assim o dissera. Reconforta-me tal reconhecimento. 

quinta-feira, outubro 02, 2008

A ACTUAL CRISE FINANCEIRA COMO RESULTADO DA CRISE DA ÉTICA


Deve ser o mercado a resolver a actual crise financeira?


O mercado funciona como sempre funcionou: até um certo ponto. Para além dele a regulação é necessária, porque ele parece não se auto-controlar.


Por um lado, não se pode ignorar os ensinamentos da teoria da evolução aplicada ao processo de desenvolvimento das sociedades, ensinamentos que levam a considerar o mercado como o mecanismo fundamental para uma constante adaptação ao progresso.

Por outro lado, os modelos de simulação estocástica actualmente utilizados parece terem vindo a evidenciar que o mercado totalmente livre é gerador de desigualdades que ferem os valores humanos da justiça social.


Havendo, assim, que temperar o mercado com mecanismos de regulação, estes mecanismos podem advir do poder central ou da sociedade em si. Dada a normalmente pouco eficiente regulação conduzida pelo Estado, parece-me que o ideal é que as sociedades encontrem em si aqueles mecanismos de regulação. E advogo que tal se faça por um retorno à ética.


O mercado não funciona? Mas o que poderá funcionar num mundo em que povos passam fome e são chacinados por déspotas protegidos por grandes interesses económicos internacionais? O que poderá funcionar num mundo em que em que a Madona aufere em três concertos o que a população de S. Tomé produz num ano? O que poderá funcionar num mundo em que em que transferências futebolísticas atingem largas dezenas de milhões de euros? O que poderá funcionar num mundo em que em que os gestores ganham somas astronómicas pela obtenção de enganadores resultados de curto prazo? O que poderá funcionar num mundo em que os homens ainda não aprenderam a conviver na ausência de Deus e na ausência desse outro deus que foi o marxismo?


Os agentes do mercado são mulheres e homens que agem consoante a cultura que os condiciona. Se não existe consenso quanto à necessidade de existirem padrões éticos de convivência social e mecanismos que os divulguem e vigiem a sua aplicação, é natural que o mercado passe a reflectir os comportamentos anómalos.


E não restrinjo os padrões éticos às questões económicas e financeiras, obviamente. Na realidade, as consequências dos avanços exponenciais do conhecimento e da demografia obrigam-nos a uma nova atitude perante a ética: à humildade de que ela nunca estará acabada, tendo constantemente de ser deduzida dos princípios que formos considerando como duradouros.


Há que ser abrangente, que pugnar por uma sociedade toda sã. E porque a inverdade é a pior ferrugem da ética, há que rejeitar frontalmente muitos de pretensos padrões éticos, que anquilosadas religiões e alguns grupos sociais procuram sustentar para além do razoável. Estou a falar do fim da família como base das sociedades no mundo ocidental, estou a falar do reconhecimento da existência das tendências homossexuais, estou a falar da proibição da eutanásia, estou a falar em substituir o perseguir da enganosa igualdade pela promoção da complementaridade das diferenças e do respeito pelo outro, por exemplo.


Pegando na questão da família, a mero título de exemplo, parece-me que, no mundo dito ocidental, sendo ela uma instituição cada vez mais débil, é perigoso pretender continuar a assentar nela a construção de todo o tecido social. Enquanto não existirem outras instituições que a possam substituir de uma forma credível em tal papel, conviria que não persistir em lhe atribuir uma importância que ela já não tem.

O persistir em conservadorismos enganadores é como defender o criacionismo e o mercado em simultâneo, esquecendo que este é uma consequência óbvia da perspectiva evolucionista. E tal persistir é tão funesto para a construção da verdade quanto o é a precipitação frequente de muitos ditos progressistas.


A ética é pois a questão de fundo. Os revolucionários dirão que a menorização da crise pela intervenção dos Estados iludirá essa questão  de fundo e defenderão que só um acentuado trauma social propiciará as condições requeridas para construir o futuro. Os reformistas defenderão o intervencionismo na actual crise, supondo que ela será lição bastante para se irem gradualmente introduzindo as alterações sociais requeridas.


segunda-feira, agosto 25, 2008

OS NÃO SILÊNCIOS DE CAVACO SILVA

Cavaco Silva é tido como um especialista na "gestão" do silêncio. Pena é que ultimamente, quando fala, nem sempre fale bem.

Isto a propósito da infeliz oportunidade e do escasso conteúdo da recente comunicação ao país e, mais recentemente, as declarações sobre a questão do divórcio.

Não me parece que um Presidente da República deva sustentar que se opine sobre o foro íntimo dos casais. Não o fazer é uma tradição portuguesa, das que nos podemos orgulhar. Os portugueses em geral e a sua imprensa respeitam essa tradição, essa forma de também sermos. Recorde-se o respeito dos portugueses sobre a relação de Snu Abecassis com Francisco Sá Carneiro, nos anos de 1970.
Ora nós não elegemos seguramente Cavaco Silva para que ele afronte tal tipo de tradições.
A GRAVATA E OS GENTLEMEN, SEGUNDO O BARMAN, A RECEPCIONISTA E O SR. JOÃO CARLOS ESPADA

Neste fim de semana, no semanário Expresso, o Sr. João Carlos Espada, atira-nos com uma muito sua crónica estival.

Num clube de gentlemen londrino, que suponho que frequenta, resolveu-se a inquirir o barman e a recepcionista sobre a quase permanente obrigatoriedade de no clube se usar gravata. Constatou o cronista, com uma satisfação que lhe transbordou para as entrelinhas, a surpresa daqueles funcionários perante a questão, quando responderam: "Mas é um clube de gentlemen, senhor!". Assim mesmo, com ponto de admiração e sem "s" de plural, que gentlemen já o é.

Parece-me a mim que por detrás de uma gravata poderá estar um homem bom ou estar um bandido. Parece-me a mim que um homem sem gravata também poderá ser um homem bom ou poderá ser um bandido. Parece-me a mim, que não sou gentleman, agora no singular!, que ao Sr. João Carlos Espada lhe fugiu o pé para o chinelo, como era tradição dizer-se em tais casos. Parece-me a mim que ele não perceberá ao que venho. Mas estou certo de que os autênticos gentlemen, com ou sem gravata, perceberão.

sábado, julho 12, 2008

SÓ NÃO VÊ QUEM NÃO QUER VER

Eu queria ver, mas o meu rigor intelectual não deixa, Sr. João Carlos Espada.

Afirma no Expresso de hoje que "... os factos revelam uma correlação fortíssima entre aumento da criminalidade, aumento da pobreza, dependência do «welfare» e erosão da família. Só não vê quem não quer ver."

Correlação entre aquelas variáveis duas a duas, penso eu. Mas uma correlação só indica que as variáveis têm simultâneamente um comportamento similar (ou inversamente similar) e não que uma é causa da outra. Pode, e acontece numerosas vezes, que outras variáveis, eventualmente desconhecidas, são a causa do comportamento das observadas.

Quando se assistia ao decréscimo súbito da criminalidade em Nova York, em meados dos anos 1990, surgiram numerosas correlações deste tipo para a explicar. Afinal, como se veio a demonstrar, em fins dos anos 1990, a principal razão para tal decréscimo era o facto, de uns dezoito anos antes, ter sido legalizado o aborto.

Nestas coisas todo o cuidado é pouco. Porque não há-de a família vir a ser substituída, futuramente, por comunidades locais, por exemplo? Só porque tal repugna ao espírito de alguns? Não tenho certezas. Mas assustam-me as convicções que se escudam por trás de um pseudo rigor.

quarta-feira, julho 09, 2008

PAÍS CURIOSO 3

O bastonário da Ordem dos Advogados vem hoje clamar contra os números excessivos dos que demandam os cursos de direito. Pareceu-me entrever no seu falar um mais que ultrapassado bastonário da Ordem dos Médicos, gentil de seu nome, que para a sua corporação defendia ideias similares. Corporações e extremos ideológicos que se tocam.
PAÍS CURIOSO 2

Mário Soares compara Guantanamo aos campos nazis. Guantanamo é realmente um insulto à democracia dos EUA e do Mundo. Mas este contribuir para banalizar o horror nazi conduz, como ele devia saber, a atitudes como a do Presidente iraniano quando afirmou que o holocausto nunca existiu. Será da idade?
PAÍS CURIOSO 1

Bem, José Manuel Fernandes fazia no Público de ontem o contraste entre os britânicos Silverstone e Wimbledon do passado Domingo e as novelas pirosas do futebol português.

Agora com o Sr. Freitas do Amaral à mistura. Falta de massas para as férias?

sexta-feira, junho 27, 2008

TGV, ALCOCHETE E OS FARAÓS*

Insisto hoje no que dizia aquando das últimas eleições autárquicas. Com a subida sustentada do petróleo, não se justifica o investimento num novo aeroporto. As dificuldades cada vez mais evidentes das companhias de aviação em todo o mundo têm a ver com a oferta que será cada vez mais excedentária. Num futuro não muito distante, só os voos de longo curso terão justificação económica e ambiental**.

Os trajectos de menor duração serão efectuados por comboio. No mesmo sentido irá o transporte de mercadorias. Bem faríamos se em lugar do aeroporto de Alcochete investíssemos no TGV de passageiros e mercadorias o mais avançado possível. Um percurso Lisboa-Madrid (Barajas) e um Aveiro-Madrid (Barajas). Vigo e Porto seriam ligados em alta velocidade a Aveiro e a Lisboa.

Quer o Sr. Sócrates, quer a Sr.ª Ferreira Leite andam enganados (?) e a enganar-nos. E que não se escudem em impossíveis estudos técnicos. Esta é uma questão política e de bom senso.
__________________________
* Os faraós são, segundo a Sr.ª Ferreira Leite, os mentores das obras públicas com que o Sr. Sócrates e comandita se propõem esbanjar os dinheiros das gerações futuras (de alemães e outros europeus bem intencionados?!).
** O semanário Expresso de amanhã, insere um eco-dizer na sua página 10: “O avião é o meio de transporte mais poluente: as suas emissões de dióxido de carbono são cerca de 80% superiores às dos restantes transportes públicos. Sempre que possível use outros meios de transporte, como o combóio.”
AS REFORMAS DE SARKOZY

O primeiro-ministro francês tem quase pronto o pacote de medidas sociais e económicas que, pretende, restituirão à França a sua competitividade no teatro Europeu e mundial. Obviamente que uma receita liberal.

Em alturas de grandes mudanças, como as que estão a produzir com a escassez de recursos a nível planetário e as fortes restrições impostas pelo meio ambiente, o sistema político mais flexível, de mais fácil adaptação continua a ser o liberal. Sistema político que necessita, é certo, de uma muito maior dose de ética do que o abuso intervencionista do Estado permite. O tatcherismo francês?
O NÃO IRLANDÊS

Faria sentido que os habitantes de Freixo de Espada à Cinta tivessem o mesmo peso político que os habitantes de Lisboa ou que os do Porto? Então porque hão-de os alemães e os franceses e outros países maiores deixar que a Irlanda ou Portugal ou outro país pequeno ter o mesmo peso que político que eles na UE?

As pessoas percebem isto, mas não percebem porque os políticos o não assumem. E os políticos sabem que assim é.

quarta-feira, junho 11, 2008

CAMIONISTAS NA RUA

Em Portugal, como na Europa, os arruaceiros vêm, vezes amiudadas, despejar a sua frustração e a sua ignorância para a rua. A ausência de democracia real impede-os de compreender a questão essencial: que os recursos do planeta são escassos, que há outras gentes no mundo que ganharam consciência, que querem comer melhor, que querem ter uma qualidade de vida mínima e que para isso lutam, trabalham e poupam. Em muita Europa, ainda se vive em tempo de império e acredita-se que se poderá continuar a ter cada vez mais, a esbanjar, trabalhando cada vez menos.

Em Portugal, uma grande maioria não trabalha, não respeita e pensa que o futuro lhe continuará a ser garantido pelos trabalhadores alemães e por outros trabalhadores europeus que se sabem organizar. A maioria dos portugueses realmente trabalhadores, daqueles que respeitam e que querem ser respeitados, emigra.
Somos o produto histórico do comando de uma burguesia marítima que, depois de D. João III, só admitiu um político e, mesmo este, porque houve a fatalidade de um terramoto.
Em tempos acreditei que a ditadura salazarista tinha sido o epílogo deste percurso. Uma crença baseada naquele pensar "Só te aguentas à força!". Hoje, sei que me enganei.

domingo, junho 01, 2008

O INCONTORNÁVEL PETRÓLEO

É nos períodos de crise que se vê a pequenez mental de muitos líderes de organizações várias, na contestação absurda a Governos e na incapacidade de anteverem o que quer que não seja igual ao que aconteceu ontem. Isto se os seus histerismos e os que descabidamente provocam não levarem a tragédias maiores.

Último parágrafo de um artigo da Newsweek de hoje, em que se questiona sobre os impactos se o preço do barril de petróleo atingir 200 dólares:

"Então, o que se pode fazer? Para começar, os políticos devem parar de questionar as grandes companhias petrolíferas acerca dos preços tão elevados (porque elas actualmente apenas controlam uma pequena percentagem das reservas conhecidas, tal controlo não está na prática ao seu alcance), devem apoiar as iniciativas em energias verdes (assentes no vento e sol, em lugar do etanol) e parar de empanturrar os votantes com subsídios e cortes nos impostos sobre os combustíveis que ignoram a nova realidade − o petróleo é um recurso escasso, há mais gente interessada no seu consumo e a prodigalidade com que o temos consumido está a acabar. “Há um combustível que é barato, é limpo, está disponível e se chama economizar”, diz West [responsável pelo sector das energias da consultora McKinsey]. Algumas estimativas indicam que o mundo podia economizar 25% do seu consumo de petróleo com medidas simples como limitar a velocidade de condução, apagar as luzes e utilizar em pleno as tecnologias energéticas verdes que já existem (híbridos, melhores isolamentos, etc, etc). Embora não tenha sido a tendência das nações ricas − particularmente da América − preocupar-se com o consumo, é uma noção que irá adquirindo importância à medida que os preços da energia subirem. Aconteceu nos anos 1970. Acontecerá de novo e, se tivermos sorte, tornar-se-á a importante e última consequência do petróleo a 200 dólares."

Use-se a cabeça e a honestidade!

E vem-me também à cabeça o nosso país em concreto. O que aqui disse, há mais de um ano, sobre o novo aeroporto de Lisboa, e que ora repito: não pode haver estudos honestos que permitam avaliar actualmente do interesse em o construir. Depois do erro cometido pelo Governo ao estimar o preço médio do barril de petróleo para o ano corrente, como se propõe este ignorar o impacto do preço do petróleo daqui a uns dez anos no devir do transporte aéreo?

terça-feira, maio 27, 2008

CULTURA E ERUDIÇÃO

O erudito é um museu de conhecimentos com pernas.

O culto entretece os conhecimentos que tem, e assim fabrica novos pensares e novas ideias. Normalmente também tem pernas.

Fica a questão de se há eruditos sem pernas.

quarta-feira, maio 14, 2008

DOGMATISMO

O dogmático persevera nas suas convicções em excesso, rejeitando tudo o que as possa por em causa.

Por mim, tenho a impressão de que há muita gente dogmática, a construir os seus raciocínios com base em premissas das quais discordo.
O ACORDO ORTOGRÁFICO

Reza o Público de hoje que João Lobo Antunes se juntou a Vasco Graça Moura na cruzada contra o acordo ortográfico. Discordam dele. Como discordaria Camões se o obrigassem a escrever os Lusíadas em posterior versão do português que então usava. Só a trabalheira de refazer as escritas e as rimas à obra ou então de as fazer numa escrita estranha? E que diria o imperador das nossas letras, o Vieira, de nos obrigarem a escrever a meio caminho do Maranhão?!

Tenho aliás a impressão de que aqueles e outros doutos senhores, na senda do orgulho pátrio, diria mesmo, do orgulhosamente sós, breve virão a propor que adoptemos o mirandês como língua pátria, resolvendo-se a questão de uma vez por todas.

Um tio avô e padrinho deu-me, há muitos anos, uma edição do dicionário Lello Universal, com entradas em português antigo e em português moderno. E lá vem a phýsica, o elle e muitos outros milhares de arcaísmos. Deverá datar de 1940 ou 1941, que não lhe imprimiram a data. Disse-me que tinham sido editados quinhentos exemplares e que a maioria tinha sido retirada do mercado por falta de compradores. Passados uns anos foi a muito custo que conseguiu arranjar, em segunda mão, o exemplar que então me oferecia.

Está visto que desde então progredimos como nação. Nos anos de 1940, os portugueses não eram como os de agora. Eram outros: queriam o dicionário segundo a última versão ortográfica. Os portugueses de hoje sustentam os escritores que estimam, porque sabem desta edição falhada. Desconfiam que as obras por eles publicadas na actual versão de português deixarão de ter saída uma vez oficializada a nova versão acordada com o restante mundo lusófono. E não querem o prejuízo dessas estimadas gentes.

Valha a verdade que mesmo agora ninguém quer o meu Lello Universal com as duplas entradas: já o tentei oferecer à biblioteca da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, sem sucesso. Duplas entradas só mesmo num bom restaurante!

segunda-feira, maio 12, 2008

O RESSURGIMENTO DA ÉTICA

Dizem-me que nos EUA jovens candidatos a emprego salvaguardam desde logo que às 18.00 horas têm de sair para ir à aula de yoga e similares. Dizem-me que em Inglaterra uma vaga de gestores prefere abdicar de privilégios e prefere auferir vencimentos mais reduzidos em favor de mais tempo para poder ter uma melhor qualidade de vida.

Pressinto nestes epifenómenos que algo de mais profundo se avizinha: uma nova forma de encarar a vida nas sociedades ocidentais. Aceita-se ainda que se façam contratos de montantes absurdos com jogadores de futebol, mas já se revela indignação. As recentes ciclópicas indemnizações a ex-administradores do BCP foram consideradas, de forma geral, como que um roubo aos clientes e aos accionistas. Os salários demasiado elevados dos gestores são questionados pelo Presidente da República. Um prémio Nobel da economia vem-nos demonstrar a irracionalidade económica dos prémios que muitos gestores se auto-atribuem. E as pessoas recordam mais o contraste com os humilhados e os excluídos de todo o globo.

Alguns factores são fundamentais no ressurgimento de uma nova forma de estar nas sociedades ocidentais.

O aprofundamento da comunicação de pessoas, de bens e de informação, a nível global, faz com que tudo se passe à nossa porta. E ou nos condoemos da dor em que vivem muitos milhões de vizinhos, ou tememos a sua provável reacção. E sentimos que temos de arrepiar caminho.

Mas a comunicação acarreta algo de socialmente mais importante: a possibilidade de evolução para formas mais complexas de organização das sociedades. Tende-se para que cada cidadão seja um nó inteligente de uma vasta rede social que cobre a biosfera. É a concretização da noosfera, proposta por T. Chardin. Cada um tem acesso facilitado a formação e informação/enformação. O poder de decisão sobre o futuro de acontecimentos sociais estar-lhe-á cada vez mais próximo. A possibilidade de controlo sobre os acontecimentos e sobre os seus actores também. Mas quem detem o poder instituído tudo fará para retardar o processo. E sentimos que temos de arrepiar caminho.

A degradação do meio ambiente começa a ser sentida como muito grave, afectando já as nossas vidas e não unicamente, passe o cinismo, as dos nossos filhos. E sentimos que temos de arrepiar caminho.

A escassez de recursos que começou a sentir-se há alguns anos nalgumas matérias-primas, ganhou protagonismo com a ascensão do petróleo e parece começar a alastrar a alguns bens alimentares. A falta de água já é uma realidade em demasiados pontos dos nossos países. E sentimos que temos de arrepiar caminho.

O novo-riquismo das novas classes médias, que fomentou em boa parte o consumismo, talvez esteja em declínio face aos novos apelos do conhecimento e do entretenimento. E é-lhe assim mais fácil arrepiar caminho.

O impacto destes factores no nosso viver já há muitos anos tinha sido anunciado. Mas só agora parece começar realmente a fazer-se sentir. E ele implica a assunção de novos valores. Está a ressurgir a ética, com roupagens obviamente adequadas ao futuro que pressentimos ter de salvaguardar.

terça-feira, abril 22, 2008

LIBERDADE, IGUALDADE, FRATERNIDADE

O termo igualdade surge-me aqui desajustado. Todos os porcos são iguais, mas uns são mais iguais que outros. É este o engodo da igualdade ao longo de toda a história. E vejo pessoas inteligentes com um inexplicável apego, diria quase religioso, pela igualdade!

Ora a vida é a desigualdade, é o diferente. Darwin ensinou-nos o constante e incontável surgimento de novas espécies. E ensinou-nos que só sobrevivem as que se adaptam ao seu entorno. E é isto que torna a vida um maravilhoso desafio.

Outra lei natural, a da construção do complexo, a da oposição à entrópica desarmonia, tem sido também desafio do homem. Que procura gerir, coordenar o agir das partes diferentes.
Mas entre o constante surgimento do diferente e a necessidade humana de o coordenar, a lei da preguiça colocou a excepcional igualdade matemática. Alguém, algures, ciente deste humano horror à descoordenação, à discórdia, ao sofrimento, propôs desatinadamente que se o resolvesse com a busca da igualdade.

A inadequação do termo ao fim visado foi utilizada para justificar muitos e muitos milhões de mortos ao longo da história dos homens.

E porque é conveniente, recordo aos que buscam o equilíbrio, que logo a seguir à revolução francesa, Robespierre eliminou muitos milhares de homens com o pretexto igualitário. E recordo-lhes ainda os milhões que Estaline mandou eliminar com o mesmo pretexto. Não idolatrem o termo. Mudem-no, que os símbolos devem servir a harmonia.

Filósofos houve que meteram ombros à tarefa de explicar porque igualdade não queria dizer igual, esquecendo que o igual é a excepção, o limite, o abstracto. E depois de múltiplos argumentos, contra-argumentos, ajustes, parece terem concluído pelo óbvio: pelo princípio igualitário que, dizem, estipula o dever-se consideração ao sofrimento e à felicidade alheios.

Por outras palavras: as coisas e os seres não podem ser tratados como iguais, pois não o são, felizmente, digo eu, mas têm de ser respeitados. E aqui está o termo correcto: respeito. Respeito por tudo o que nos cerca, esse tudo que nos faz e que também somos.

Desta feita, quero celebrar a continuada desigualdade, a continuada diferença, pilares da vida e do universo. E quero celebrar o continuado respeito a que elas nos obrigam.

Liberdade, respeito e fraternidade, sim!

sábado, fevereiro 09, 2008

UMA MULHER

Não me via o anseio de ir? Não me via o mudar o peso de perna, a impaciência da timidez? Ou via e queria afastá-la?

Disse-me que aos nove anos servia a dias para ajudar a mãe, e que teve sonhos, e que os perseguiu a pulso. Disse-me que teve, que deixou de ter e que novamente se tinha erguido a pulso. E disse. E disse. Tecera a sabedoria com a sensibilidade, com a experiência, com o intelecto. E queria, inexplicavelmente, dizer-se em quinze minutos. De enfiada. Uma alma linda, feita com a quarta classe e os sonhos e os filhos e os afectos e a vontade, numa ânsia de partilha.

Oscilei entre o que ouvia e o temor de ser o que queria ouvir. As duas coisas escorregando numa timidez que se me erguia, a do medo de não poder ou de não saber retribuir.

Entrou uma freguesa e ela foi-se a aviá-la. Calçada acima, não percebi se estava ou não a fugir de um encantamento.