CORPO ESGUIO
Do outro lado do mar
Chegam rezas
Do amor e de amores
Rezas sem fim
Encerradas pelo beijo
No sal da saudade
Lembram-me
O corpo esguio
Sentido
Tomado por amor
Aberto que chama
Sobre o amor fechado
Mel que se desfaz saboreado
Lembram-me
O sem sentido
Que o lugar
Qualquer lugar
Então encerra
Acima do gosto de me dar a conhecer, há que contribuir para usar a internete como veículo de crescimento. Com rigor, com respeito, não fugindo à especulação fundamentada, não fugindo à irreverência. Limitado pelo meu saber e pela minha imaginação, e querendo de tudo tratar, preciso de vocês. Agradeço os comentários, apelo à humildade do que pergunta para saber mais. "To be and not to be is the answer" porque sabemos hoje que cada coisa contendo em si o seu contrário.
domingo, julho 09, 2006
sexta-feira, junho 16, 2006
A QUEM LER
Se as páginas deste livro consentem algum
verso feliz, perdoe-me o leitor a indelicadeza
de o ter usurpado previamente. Os nossos
nadas pouco diferem; é vulgar e fortuita a
circunstância de que sejas tu o leitor destes
exercícios e eu o seu redactor.”
da introdução de Fervor de Buenos Aires
(J L Borges, Obras Completas, vol. I, ed. Teorema)
Se as páginas deste livro consentem algum
verso feliz, perdoe-me o leitor a indelicadeza
de o ter usurpado previamente. Os nossos
nadas pouco diferem; é vulgar e fortuita a
circunstância de que sejas tu o leitor destes
exercícios e eu o seu redactor.”
(J L Borges, Obras Completas, vol. I, ed. Teorema)
domingo, junho 11, 2006
CAVACO E A CULTURA DO PAÍS
Desde o séc. XVI que se foi criando e aprofundando na cultura portuguesa muitos aspectos retrógrados, como inúmeras vezes por aqui tenho dito, apresentando exemplos, estudos e conclusões de quem estudou a questão. Ora um desses aspectos é o do elevado grau de dependência da mulher e do homem portugueses, a sua dificuldade em se assumirem realmente como adultos.
Penso que um político honesto tem de cuidar o reflectir em questões desta grandeza, antes de propor qualquer política global para o país. Por outro lado, creio que Cavaco Silva é um homem honesto e, mais, de rigor.
Assim sendo, que conclusão sobre a defesa que Cavaco fez, em 10 de Junho, de ser da "responsabilidade" de cada português a construção do futuro Portugal? Voltam-me os receios que em tempos aqui manifestei sobre as limitações culturais de Cavaco para assumir a Presidência da República.
Veremos se alguém lhe explica a impossibilidade cultural de tão generoso desejo e ele arranja forma de "dar a volta" ao que disse ou ... se consegue levar a impor um conjunto de medidas que acelerem as mudanças culturais necessárias para tornar possível o que disse (daqui a una anos, é claro, que estas coisas, sendo mais rápidas hoje, ainda levam o seu tempo).
Desde o séc. XVI que se foi criando e aprofundando na cultura portuguesa muitos aspectos retrógrados, como inúmeras vezes por aqui tenho dito, apresentando exemplos, estudos e conclusões de quem estudou a questão. Ora um desses aspectos é o do elevado grau de dependência da mulher e do homem portugueses, a sua dificuldade em se assumirem realmente como adultos.
Penso que um político honesto tem de cuidar o reflectir em questões desta grandeza, antes de propor qualquer política global para o país. Por outro lado, creio que Cavaco Silva é um homem honesto e, mais, de rigor.
Assim sendo, que conclusão sobre a defesa que Cavaco fez, em 10 de Junho, de ser da "responsabilidade" de cada português a construção do futuro Portugal? Voltam-me os receios que em tempos aqui manifestei sobre as limitações culturais de Cavaco para assumir a Presidência da República.
Veremos se alguém lhe explica a impossibilidade cultural de tão generoso desejo e ele arranja forma de "dar a volta" ao que disse ou ... se consegue levar a impor um conjunto de medidas que acelerem as mudanças culturais necessárias para tornar possível o que disse (daqui a una anos, é claro, que estas coisas, sendo mais rápidas hoje, ainda levam o seu tempo).
domingo, abril 16, 2006
NÃO HÁ TEMPO
Desço da montanha.
Desço da montanha.
Não tenho a suposta calma do mar profundo.
Aqui, o tempo escoa-se-me por entre os dedos que teclam, furiosa e insanamente, verbos que deviam ser ideias.
Espelhos estilhaçam-se no torvelinho desta mente sem tempo.
E recuso os adornos com que os homens insistem continuadamente em o encobrir.
sábado, abril 15, 2006
OS FRANCESES E A CULTURA “BOTTOM-UP”
Em 1789 a França da Revolução e a intelligentsia que a partir dela se formou, vieram querendo impor ao mundo, de cima, a igualdade. Não há igualdade na natureza, como Darwin bem demonstrou, mas antes a luta constante pela adaptação à sobrevivência. O mundo faz-se pois nessa luta, a partir de baixo, na recusa de vanguardas iluminadas, na luta pela diferença, pelo desigual, pela sobrevivência, pelo continuado aumento do saber. Mas, a par disso, a noosfera requer a solidariedade, a integração dessas diferenças, para que os homens posam construir um futuro cada vez mais complexo, mas também mais harmonioso. Mostra-o a TV, possibilita-o a internet. A luta do homem, hoje e nos tempos vindouros, é a luta pela integração do que é diverso, a construção harmoniosa do todo e não a busca da igualdade de per si.
Em 1789 a França da Revolução e a intelligentsia que a partir dela se formou, vieram querendo impor ao mundo, de cima, a igualdade. Não há igualdade na natureza, como Darwin bem demonstrou, mas antes a luta constante pela adaptação à sobrevivência. O mundo faz-se pois nessa luta, a partir de baixo, na recusa de vanguardas iluminadas, na luta pela diferença, pelo desigual, pela sobrevivência, pelo continuado aumento do saber. Mas, a par disso, a noosfera requer a solidariedade, a integração dessas diferenças, para que os homens posam construir um futuro cada vez mais complexo, mas também mais harmonioso. Mostra-o a TV, possibilita-o a internet. A luta do homem, hoje e nos tempos vindouros, é a luta pela integração do que é diverso, a construção harmoniosa do todo e não a busca da igualdade de per si.
Nesta justa medida, estão desadequadas as culturas que assentam na realidade e na divindade como coisas reveladas, de fora, como é o caso da França, de grande parte dos países latinos e dos países do norte africano. Atrasarem-se mais ou menos face à evolução do planeta restante, está nas mãos dos seus jovens; o que, nos casos para já conhecidos, parece apontar para um cada vez maior atraso.
quarta-feira, abril 05, 2006
A INCOMPETÊNCIA DOS GESTORES PORTUGUESES
Portugal, segundo diversos relatórios internacionais, deveria estar a travar uma batalha perdida para atrair investimentos estrangeiros. […] Rara tem sido a semana, nos meses mais recentes, em que não foi assinado um contrato ou uma declaração de intenções no valor (dezenas ou mesmo centenas) de milhões de euros: […].
Porque é que os investidores estrangeiros como estes são atraídos para um país que tem o menor índice de produtividade dos 15 Estados-membros da União Europeia anterior ao alargamento? Segundo um relatório recente do Banco de França, talvez seja porque as duas maiores desvantagens de Portugal são a formação laboral e a capacidade de gestão. Outros factores, como infraestruturas, acesso a crédito, estabilidade social e logística, estão altamente cotados, diz o relatório. Empresas que fornecem a formação e a gestão, para suplantar essas duas fraquezas, como é o caso da maior parte dos investidores estrangeiros, obtêm níveis de produtividade dos mais elevados do mundo. [...]
Portugal, segundo diversos relatórios internacionais, deveria estar a travar uma batalha perdida para atrair investimentos estrangeiros. […] Rara tem sido a semana, nos meses mais recentes, em que não foi assinado um contrato ou uma declaração de intenções no valor (dezenas ou mesmo centenas) de milhões de euros: […].
Porque é que os investidores estrangeiros como estes são atraídos para um país que tem o menor índice de produtividade dos 15 Estados-membros da União Europeia anterior ao alargamento? Segundo um relatório recente do Banco de França, talvez seja porque as duas maiores desvantagens de Portugal são a formação laboral e a capacidade de gestão. Outros factores, como infraestruturas, acesso a crédito, estabilidade social e logística, estão altamente cotados, diz o relatório. Empresas que fornecem a formação e a gestão, para suplantar essas duas fraquezas, como é o caso da maior parte dos investidores estrangeiros, obtêm níveis de produtividade dos mais elevados do mundo. [...]
do Courrier Internacional de 31.03.06, citando o Finantial Times
COMENTÁRIO: E o Sr. Sócrates continua convicto de que o Plano Tecnológico é um dos pilares do desenvolvimento nacional. É a cultura, …! No caso presente, as suas vertentes que promovam as necessárias competências para sermos melhores gestores.
terça-feira, abril 04, 2006
EFEMÉRIDE
Surgiu-me e surgiram Rafael e Alfredo que me arrastaram pela humidade das ruas, rumo a alegrias que não sabiam onde encontrar. Não convencido, mais pelo não só, lá fui como que suspenso, detestando-os e agradecendo-lhes.
Surgiu-me e surgiram Rafael e Alfredo que me arrastaram pela humidade das ruas, rumo a alegrias que não sabiam onde encontrar. Não convencido, mais pelo não só, lá fui como que suspenso, detestando-os e agradecendo-lhes.
Não interessa se andamos ou não quarteirões, se por ruas, se por ruelas. Eles tinham de se aportar ao que não sabiam, normalmente ao sabor do excesso de bebida. De fora, naquela cervejaria, vi rostos desconhecidos que celebravam com aparência alegre a efeméride. Abandonei-os contrariados e, chapéu enterrado, mãos enfiadas nos bolsos, empurrei a porta balouçante e entrei. Na algazarra, no fumo, nos braços erguidos com copos, nos rostos sorridentes, meio enjoados, meio cúmplices, nos acenos que me esboçam. Mulheres que se aproximam, que me querem o chapéu, que me querem as mãos enfiadas ainda nos bolsos; que me querem o sobretudo. Recuo assustado, amarelo, sorridente, aparvalhado. Apercebo-me do álcool ocupando o lugar do ar, sinto todo o plástico que me cerca, tudo com a lucidez de quem começa a exaltar os sentidos. Acenei apressada e cobardemente, voltei-me e fugi.
Rafael e Alfredo tinham tido o bom senso de nem sequer entrar. Tinham desaparecido, continuado na sua demanda de alegrias. Estava só. Então uma mulher oferece-me o braço e arrasta-me rua abaixo. Manuela. A Manuela que eu nunca quisera conhecer, por medo de mim; mas que nunca ousara deixar de a ver, anos a fio, paixão escondida, só minha. Continuamos a andar, e por momentos acreditei senti-la saltitar contente ao meu lado, contrastando com o seu aparente andar cadenciado. Fomos.
Barulho num andar por cima de uma porta escancarada a convidar-nos a entrar. Subimos. Uma sala grande de uma casa velha, com um velho soalho de madeira já muito coçada, com uma mesa comprida feita de outras mais pequenas, escondidas por toalhas de tons desconexos e de bibelots também desconexos. Uma sala cheia de gente que acredita na solidez das suas almas e na torpeza das de uns quantos que elegeram como opressores; miúdos rodopiando por todo o lado. “Onde viemos cair, meu Deus!”, desabafei-lhe ao ouvido. Mas ela fez de conta que eu não acreditava no Deus de que falava e acedeu aos instantes convites para nos sentarmos num dos lados do topo da mesa. Vi-me obrigado a largar chapéu e sobretudo. Fiquei-me a procurar ouvir, sem largar a mão da Manuela.
No momento concentravam as atenções numa velha e grande TV, que lhes trazia as glórias, as ilusões do passado de há trinta anos. As flores nas espingardas, o ar imberbe da soldadesca e de uns quantos oficiais. As cerimónias da entronização, não da grande burguesia, mas dos burgueses salazarentos que através do Estado iriam controlar o país, remetendo para caciquismos locais o que seriam sempre as pequenas coisas locais, as da província. Continuavam a crer que fora uma revolução, como talvez o creiam aqueles burgueses agora democraticamente entronizados. Comecei a sentir-me agoniado com aquela mistura de fé e cegueira, da continuada recusa em enfrentar o futuro real.
Sempre fui assim. O social sobrepõe-se ao próximo e este afasta-se − talvez crendo-se maltratado, esquecido −, uma das múltiplas interpretações para o que Goethe disse. E assim me senti. Nunca consegui que os próximos fossem meus espelhos, talvez porque sempre me exigi muito, e creio senti-los pouco dados a outro tanto. Ou talvez porque me tenha habituado aos ares da montanha e do mar profundo e já não saiba vir ao encontro deles.
Manuela percebeu-me a alma, apertou-me a mão, num aperto que me convidava a aceitar mais uns momentos. Seguiu-se, já o esperava, a gravação de então do discurso do grande profeta, sublinhado por calorosas salvas de palmas. Eu suava e imaginava Manuela olhando-me condoída.
Por fim o profeta, talvez condoído de mim e de outros como eu, calou-se. Como que por magia, saltaram comeres e beberes de cestos ocultos sob as toalhas das mesas. Já vivera esta situação uma ou duas vezes, quando jovem; procurava então, em bailes ditos populares, satisfazer outros apetites. Como então e como noutro lado qualquer, tudo era gorduroso.
Levantei-me. Manuela dançava com duas pequenitas em seu redor. As pequenitas foram chamadas a abancar junto das mães. Peguei nos nossos abafos, no meu chapéu, agradeci quase furiosamente e arrastei-a escadas abaixo até à rua. Chapéu posto, vesti-lhe o casaco e vesti-me o sobretudo. Respirei fundo. Meti as mãos nos bolsos. Sem saber o que propor, a não ser fugir.
segunda-feira, março 13, 2006
CAVACO E SÓCRATES
Como já vários disseram, quando houve a relativa certeza de que Cavaco se iria candidatar à Presidência da República, Sócrates terá decidido que lhe conviria governar com ele: terá acreditado sobretudo que assim se criariam condições para levar o seu partido a subscrever medidas necessárias, mas a que o respectivo aparelho se opõe; terá acreditado também que, de certa forma, assim reduziria o que poderia vir a ser o peso do principal partido da oposição, perante as ainda dolorosas medidas de que o país necessita. E, nesta visão, terá conduzido toda a acção do PS nas eleições presidenciais. A ser assim, parece que teríamos de tirar o chapéu à sua mestria política.
E, contudo, as coisas podem não ser tão lineares. Duas coisas movem os homens: as suas acções e o acaso; às vezes mais umas, outras vezes mais o outro. Mas as acções resultam, em grande medida, do profundamente enraizado no espírito de cada um e que dele faz um ser único. E isso constata-se pelas atitudes e comportamentos de cada um; pressente-se nas crenças e nos valores que lhe percebemos.
Nesta perspectiva, vejo um Cavaco que acredita no valor da honestidade e crê nela se enquadrar; cujas decisões são feitas no rigor; que não acredita no acaso e que, talvez por isso, não se alonga no futuro para além de uma meia dúzia de anos.
Também vejo um Sócrates com uma maior crença na sorte, e, também por isso, usando um menor rigor na decisão e tendo uma maior propensão para sonhar o futuro, ou seja, a estender o seu horizonte muito para além da meia dúzia de anos.
Se Sócrates levasse Cavaco a esquecer alguns dos seus bisonhos assessores, a acreditar um pouco mais na sorte e a ver para além da mera meia dúzia de anos; e se Cavaco convencesse Sócrates da imprescindibilidade do rigor na metodologia do pensar e na importância de um povo perceber a honestidade nos seus governantes e instituições, auguraria para Portugal uma próxima década feliz.
Infelizmente, e como acima disse, há coisas que estão profundamente enraizadas em cada homem. E, como assim deverá ser também neste caso, talvez os portugueses venham a ser surpreendidos com conflitos mais ou menos insanáveis entre os dois, com as correspondentes menores eficácia e eficiência de que o país tanto necessita.
Oxalá me engane e, de preferência, redondamente!
Como já vários disseram, quando houve a relativa certeza de que Cavaco se iria candidatar à Presidência da República, Sócrates terá decidido que lhe conviria governar com ele: terá acreditado sobretudo que assim se criariam condições para levar o seu partido a subscrever medidas necessárias, mas a que o respectivo aparelho se opõe; terá acreditado também que, de certa forma, assim reduziria o que poderia vir a ser o peso do principal partido da oposição, perante as ainda dolorosas medidas de que o país necessita. E, nesta visão, terá conduzido toda a acção do PS nas eleições presidenciais. A ser assim, parece que teríamos de tirar o chapéu à sua mestria política.
E, contudo, as coisas podem não ser tão lineares. Duas coisas movem os homens: as suas acções e o acaso; às vezes mais umas, outras vezes mais o outro. Mas as acções resultam, em grande medida, do profundamente enraizado no espírito de cada um e que dele faz um ser único. E isso constata-se pelas atitudes e comportamentos de cada um; pressente-se nas crenças e nos valores que lhe percebemos.
Nesta perspectiva, vejo um Cavaco que acredita no valor da honestidade e crê nela se enquadrar; cujas decisões são feitas no rigor; que não acredita no acaso e que, talvez por isso, não se alonga no futuro para além de uma meia dúzia de anos.
Também vejo um Sócrates com uma maior crença na sorte, e, também por isso, usando um menor rigor na decisão e tendo uma maior propensão para sonhar o futuro, ou seja, a estender o seu horizonte muito para além da meia dúzia de anos.
Se Sócrates levasse Cavaco a esquecer alguns dos seus bisonhos assessores, a acreditar um pouco mais na sorte e a ver para além da mera meia dúzia de anos; e se Cavaco convencesse Sócrates da imprescindibilidade do rigor na metodologia do pensar e na importância de um povo perceber a honestidade nos seus governantes e instituições, auguraria para Portugal uma próxima década feliz.
Infelizmente, e como acima disse, há coisas que estão profundamente enraizadas em cada homem. E, como assim deverá ser também neste caso, talvez os portugueses venham a ser surpreendidos com conflitos mais ou menos insanáveis entre os dois, com as correspondentes menores eficácia e eficiência de que o país tanto necessita.
Oxalá me engane e, de preferência, redondamente!
sexta-feira, fevereiro 24, 2006
O ESTADO SOCIAL
Nas sociedades mais desenvolvidas, à medida que a esperança de vida aumenta e à medida que aumenta o conhecimento na área da saúde, os gastos sociais com a segurança social, saúde incluída, têm crescido apreciavelmente acima do PIB. Para lá de ser o Estado ou de serem os cidadãos a pagá-los, a questão de fundo, a de largo prazo, é a de que, a continuar tal ritmo de crescimento, tais custos tornar-se-iam socialmente incomportáveis, já que poderiam atingir, dentro de duas ou três décadas, mais de 40% do PIB.
O mesmo problema se coloca relativamente à educação. O explosivo crescimento do conhecimento implica acentuadas mutações nas sociedades, e um e outras obrigam a um crescendo das necessidades de formação, seja ela inicial, seja ela ao longo da vida. Também aqui, a manterem-se os seus anteriores ritmos de crescimento, os custos tornar-se-iam socialmente incomportáveis, fosse quem fosse a pagá-los.
Em tais circunstâncias, a actual discussão sobre quem paga − se o Estado, se os cidadãos, e em que percentagens −, discussão a que a esquerda se limita e em que a esquerda se limita, tende a iludir a dita questão de fundo, a de encontrar soluções sustentáveis em termos do largo prazo. E os cidadãos, que dizemos repetidamente não serem estúpidos, apercebem-se disto, e julgam assim aperceber-se de que falta à esquerda o sentido de Estado, por não cuidar do futuro.
Ao enfatizar a discussão e ao propor soluções para o agora, ou seja, ao aceitar colocar a questão no mero curto prazo histórico, a esquerda entrega assim de bandeja a credibilidade e os votos ao campo liberal.
Ora estes, por definição, navegam ao sabor das ondas dos momentos. Mas aqui, curiosamente, colocam a questão da impossibilidade de o Estado continuar a pagar a factura do social no futuro. Dão a entender que se preocupam com o futuro. Mas, simultaneamente, cuidam de ocultar que também a sociedade civil a não poderá pagar, se mantiverem os seus ritmos de crescimento em relação ao PIB.
Desta feita, os liberais fazem dois em um: contribuem para a aceitação do seu propósito de desmantelar, ou reduzir apreciavelmente o Estado social; e, ao mesmo tempo, apresentam-se aos cidadãos como os mais responsáveis pelo assegurar da sustentabilidade do Estado em termos de futuro, como os mais credíveis em termos de governação.
E os cidadãos não se apercebem de que só fica garantida a sustentabilidade do Estado que os liberais entendem dever ser mínimo, não ficando garantido que a sociedade civil possa arcar com o ritmo de crescimento das referidas despesas.
O rigor deveria obrigar a traçar diferentes cenários de evolução para diferentes soluções que se aventassem e se imaginassem. E só depois de ter meditado sobre tais cenários se deveriam tratar das respostas a dar a no curto/médio prazo.
Nas sociedades mais desenvolvidas, à medida que a esperança de vida aumenta e à medida que aumenta o conhecimento na área da saúde, os gastos sociais com a segurança social, saúde incluída, têm crescido apreciavelmente acima do PIB. Para lá de ser o Estado ou de serem os cidadãos a pagá-los, a questão de fundo, a de largo prazo, é a de que, a continuar tal ritmo de crescimento, tais custos tornar-se-iam socialmente incomportáveis, já que poderiam atingir, dentro de duas ou três décadas, mais de 40% do PIB.
O mesmo problema se coloca relativamente à educação. O explosivo crescimento do conhecimento implica acentuadas mutações nas sociedades, e um e outras obrigam a um crescendo das necessidades de formação, seja ela inicial, seja ela ao longo da vida. Também aqui, a manterem-se os seus anteriores ritmos de crescimento, os custos tornar-se-iam socialmente incomportáveis, fosse quem fosse a pagá-los.
Em tais circunstâncias, a actual discussão sobre quem paga − se o Estado, se os cidadãos, e em que percentagens −, discussão a que a esquerda se limita e em que a esquerda se limita, tende a iludir a dita questão de fundo, a de encontrar soluções sustentáveis em termos do largo prazo. E os cidadãos, que dizemos repetidamente não serem estúpidos, apercebem-se disto, e julgam assim aperceber-se de que falta à esquerda o sentido de Estado, por não cuidar do futuro.
Ao enfatizar a discussão e ao propor soluções para o agora, ou seja, ao aceitar colocar a questão no mero curto prazo histórico, a esquerda entrega assim de bandeja a credibilidade e os votos ao campo liberal.
Ora estes, por definição, navegam ao sabor das ondas dos momentos. Mas aqui, curiosamente, colocam a questão da impossibilidade de o Estado continuar a pagar a factura do social no futuro. Dão a entender que se preocupam com o futuro. Mas, simultaneamente, cuidam de ocultar que também a sociedade civil a não poderá pagar, se mantiverem os seus ritmos de crescimento em relação ao PIB.
Desta feita, os liberais fazem dois em um: contribuem para a aceitação do seu propósito de desmantelar, ou reduzir apreciavelmente o Estado social; e, ao mesmo tempo, apresentam-se aos cidadãos como os mais responsáveis pelo assegurar da sustentabilidade do Estado em termos de futuro, como os mais credíveis em termos de governação.
E os cidadãos não se apercebem de que só fica garantida a sustentabilidade do Estado que os liberais entendem dever ser mínimo, não ficando garantido que a sociedade civil possa arcar com o ritmo de crescimento das referidas despesas.
O rigor deveria obrigar a traçar diferentes cenários de evolução para diferentes soluções que se aventassem e se imaginassem. E só depois de ter meditado sobre tais cenários se deveriam tratar das respostas a dar a no curto/médio prazo.
quinta-feira, fevereiro 16, 2006
REPETE LÁ OUTRA VEZ
Tonho saiu da prisão e emprenhou num baile a Graziela. Teve um filho José.
José não foi carpinteiro, nem foi político. Assim, não tratou do lenho, sagrado ou não, nem se arranjou com vigarices legais. Preencheu-se com a rua, com a preguiça, com o vício, com o tráfico, com a prisão, por esta exacta ordem?
José saiu da prisão e emprenhou numa discoteca a …
Tonho saiu da prisão e emprenhou num baile a Graziela. Teve um filho José.
José não foi carpinteiro, nem foi político. Assim, não tratou do lenho, sagrado ou não, nem se arranjou com vigarices legais. Preencheu-se com a rua, com a preguiça, com o vício, com o tráfico, com a prisão, por esta exacta ordem?
José saiu da prisão e emprenhou numa discoteca a …
terça-feira, fevereiro 07, 2006
SOBRE O QUE BLOGO
Necessariamente sobre mim e os espelhos que me rodeiam. Preocupa-me mais a política, a pintura e a poesia, mas também a literatura que não de cordel.
E isto deve bastar ao http://blogsearch.google.com/.
A LATA DE FERMENTO ROYAL
Nos meus cinco anos, cirandava em torno de minha mãe quando ela se propunha fazer um bolo. E a lata lá estava, com o seu rótulo vermelho. Rótulo vermelho onde havia um círculo no qual figurava a imagem da própria lata! E eu mergulhava no círculo, na lata dentro deste, no círculo desta, na lata ainda mais pequena que lá estava, no círculo desta e continuava sempre, sempre.
Caía em mim e reparava que, afinal, às tantas havia um minúsculo círculo já nada continha. Perplexo e angustiado pela incapacidade do designer, tratava de rapar a massa adocicada que restara na malga onde o bolo fora preparado.
Descobrira o infinito e a impossibilidade de o representar, tudo numa lata de fermento Royal!
A lata e o seu rótulo foram-me perseguindo na vida. Quando me ensinaram filosófica e matematicamente o que era o infinito, eles estiveram contudo ausentes. Mais tarde, muito mais tarde, terei produzido umas quaisquer ligações neuronais, ligações que, segundo Damásio e outros entendidos, condicionam o sentimento e o entendimento, e que me levaram a compreender que aos cinco anos de idade descobrira o infinito, como coisa real, por fora.
Mas a lata e o seu rótulo continuaram a fazer questão em não me abandonar. Li filosofias, religiões, yogas e quejandos. Aprendi que alegrias e cabeçadas neste caminho terreno eram o karma que desvendava o conhecimento que em mim já havia. Mas só hoje, hoje mesmo, quando tomava o meu prosaico duche, produzi mais umas quantas ligações neuronais, percebi que o infinito estivera sempre em mim e que descobri-lo aos cinco anos de idade não foi coisa de monta.
A lata e o seu rótulo foram o seu mero espelho, o espelho do infinito, como coisa real, por dentro.
Nos meus cinco anos, cirandava em torno de minha mãe quando ela se propunha fazer um bolo. E a lata lá estava, com o seu rótulo vermelho. Rótulo vermelho onde havia um círculo no qual figurava a imagem da própria lata! E eu mergulhava no círculo, na lata dentro deste, no círculo desta, na lata ainda mais pequena que lá estava, no círculo desta e continuava sempre, sempre.Caía em mim e reparava que, afinal, às tantas havia um minúsculo círculo já nada continha. Perplexo e angustiado pela incapacidade do designer, tratava de rapar a massa adocicada que restara na malga onde o bolo fora preparado.
Descobrira o infinito e a impossibilidade de o representar, tudo numa lata de fermento Royal!
A lata e o seu rótulo foram-me perseguindo na vida. Quando me ensinaram filosófica e matematicamente o que era o infinito, eles estiveram contudo ausentes. Mais tarde, muito mais tarde, terei produzido umas quaisquer ligações neuronais, ligações que, segundo Damásio e outros entendidos, condicionam o sentimento e o entendimento, e que me levaram a compreender que aos cinco anos de idade descobrira o infinito, como coisa real, por fora.
Mas a lata e o seu rótulo continuaram a fazer questão em não me abandonar. Li filosofias, religiões, yogas e quejandos. Aprendi que alegrias e cabeçadas neste caminho terreno eram o karma que desvendava o conhecimento que em mim já havia. Mas só hoje, hoje mesmo, quando tomava o meu prosaico duche, produzi mais umas quantas ligações neuronais, percebi que o infinito estivera sempre em mim e que descobri-lo aos cinco anos de idade não foi coisa de monta.
A lata e o seu rótulo foram o seu mero espelho, o espelho do infinito, como coisa real, por dentro.
segunda-feira, fevereiro 06, 2006
LER DEPRESSA
Miúdo ainda, devorava livros de todas as formas, feitios e géneros. Aos 12 anos dei como comigo a ler o Robinson Crusoé. Seguiram-se a colecção Vampiro e todo o Emílio Salgari, um ritmo vertiginoso. Quando me perguntaram como conseguia ler tantos livros, respondia: “Gosto de acção! Só leio os diálogos!”.
Hoje, um colega e amigo contou-me que um antigo professor, o Manuel Miranda, responsável então pela disciplina de Mecânica Racional na Faculdade de Ciências do Porto, teria explicado aos alunos como lia um romance em menos de meia hora, nem que fosse o Ulisses, do James Joyce: começa-se por ler as últimas páginas, para ver como acaba a história; então lê-se as primeiras para se perceber quem é quem; se restarem dúvidas, lê-se algumas do meio…
Miúdo ainda, devorava livros de todas as formas, feitios e géneros. Aos 12 anos dei como comigo a ler o Robinson Crusoé. Seguiram-se a colecção Vampiro e todo o Emílio Salgari, um ritmo vertiginoso. Quando me perguntaram como conseguia ler tantos livros, respondia: “Gosto de acção! Só leio os diálogos!”.
Hoje, um colega e amigo contou-me que um antigo professor, o Manuel Miranda, responsável então pela disciplina de Mecânica Racional na Faculdade de Ciências do Porto, teria explicado aos alunos como lia um romance em menos de meia hora, nem que fosse o Ulisses, do James Joyce: começa-se por ler as últimas páginas, para ver como acaba a história; então lê-se as primeiras para se perceber quem é quem; se restarem dúvidas, lê-se algumas do meio…
sábado, fevereiro 04, 2006
AS CARICATURAS DE MAOMÉ
No grão dia singular,
que na lira o douto som
Hierusalém celebrar,
lembrai-Vos de castigar
os ruins filhos de Edom.
Aqueles que tintos vão
no pobre sangue inocente,
soberbos co’ o poder vão,
arraisai-os igualmente:
conheçam que humanos são.
Luís de Camões, Abel e Sião
Nietzsche compreendeu que Deus deixara de ser enquanto realidade imposta, compreendeu que passara a estar entre nós, em nós, no acompanhar do movimento universal da democratização. Os Mandamentos foram sustituídos, mais tarde, pela Declaração Universal dos Direitos do Homem. E, nas sociedades ocidentais, a que me refiro, os valores são cada vez mais os que cada um constrói para viver.
O caricaturar do Papa, de Cristo, da Senhora ou dos santos, não é pois tomado como real ofensa àqueles, mas antes num sentido metafórico, essencialmente ligado ao facto que se pretende criticar. Porque não respeitam os muçulmanos esta nossa cultura?
Fez bem a Dinamarca em não apresentar desculpas, fizeram mal alguns menos reflexivos dos nossos em censurar “o ferir a susceptibilidade dos muçulmanos”. Cada comunidade tem a sua cultura que deve ser respeitada certamente. Por isso mesmo, os muçulmanos deveriam aceitar que, na nossa cultura, caricaturar Maomé não contém a intenção de o ofender, de os ofender.
As cenas primitivas a que vimos assistindo por parte das comunidades islamitas só mostram a sua dificuldade em tolerar a diferença, em aceitar a democracia e isto num mundo em globalização e democratização. É um prenúncio do seu estertor, de uma desadequação a este novo mundo, como o é o do terrorismo do Sr. Bin Laden.
Coisas do passado que nos atormentam no presente, é certo. Mas que não são adequadas ao futuro e que por isso não sobreviverão.
sexta-feira, fevereiro 03, 2006
A CULTURA NACIONAL, CAUSA PRIMEIRA (5)
4. Como mudar aquelas componentes indesejáveis
A grande questão é de como se há-de promover tais mudanças culturais. Como disse, existe hoje bastante conhecimento sobre técnicas e metodologias para alavancar mudanças culturais. Tais métodos visam refazer as redes neuronais que levam cada um ao seu entendimento do mundo e das coisas, levando-o a adoptar outras formas de o fazer. Quando se trata de sociedades, os meios de comunicação social podem desempenhar um papel relevante no pôr em causa as velhas certezas e no forjar das novas realidades.
Mas profundas alterações no modo como a sociedade portuguesa desenvolve as suas actividades económicas e sociais é, para mim, a chave da questão, o que é realmente necessário para assegurar que as novas realidades se entranhem. Daí que entenda ser fundamental a adopção de dois conjuntos de medidas, em simultâneo.
Um primeiro relacionado com as classes dirigentes, porque a liderança é nesta questão um ponto fundamental, como bem o sabe o povo. Os líderes, como disse, emitem sinais que condicionam o comportamento dos seguidores. Ora uma boa fatia das nossas classes dirigentes, e não só políticas, ou até públicas, mas também privadas, como associações patronais e sindicais, é pouco capaz ou serve-se em lugar de servir. Grande parte é gente pequena, empoleirada em alturas em que se têm de proteger das vertigens.
Haveria que criar condições para que os bons que nelas restam, procurem arrebanhar aqueles que ainda se possam corrigir; que criar condições para que se promovam organizações cívicas, para além dos partidos, afim de gerar novas elites. E haveria que as preparar para contribuírem para a necessária mudança cultural.
Não é tarefa fácil dado o estado de deterioração atingido, pelos muitos telhados de vidro que inibem muitos. Sem resolver este particular aspecto, será difícil uma ampla mobilização. Mas muita coisa se pode e tem de fazer, até apara o apoio ao segundo conjunto de medidas que proponho.
E este segundo conjunto de medidas é a receita liberal: o reduzir drasticamente o aparelho do estado, o aumentar a sua credibilidade e o seu desempenho; o entregar muitas das actuais funções do estado a organizações da sociedade civil; o fomentar um mercado mais livre e concorrencial, em que não se temam as boas gestões estrangeiras − que a independência de uma nação é a das almas dos seus cidadãos e não o do controlo de pseudo centros de decisão económica −.
Seria um crescimento doloroso, estou certo, mas ajudaria a mudar a postura da mulher e do homem português para atitudes mais consentâneas com a sua sobrevivência futura.
Pautando-me, em teoria, por outros catecismos, reconheço ser este o remédio apropriado para o momento nacional.
A ser assim, seria bom que a esquerda abandonasse ideias e vestes do passado, que procurasse vias para evitar ou minorar os reconhecidos efeitos secundários do remédio, e que cuidasse de lhe encontrar alternativas credíveis para o futuro. Pessoalmente, penso que devia pugnar para que os actuais serviços estatais de educação, saúde, de solidariedade fossem sendo progressivamente apropriados por organizações locais radicadas nos seus principais utentes. Penso que deveria pugnar para que se criassem organizações cívicas de cidadania com real poder de intervenção a nível local. Fundamentalmente, contribuir para a criação de um espírito cívico, de solidariedade e de independência no cidadão português.
Seria bom todos acordarmos para o impacto que a cultura tem no nosso futuro. Ignorá-la é escolher a via mais difícil e, portanto, custosa de fazer mudanças. Mas é, sobretudo, aumentar o risco de cometer erros graves na tomada de decisão política. Como no exemplo do prolongar no tempo do imposto da SISA, que acima se viu.
4. Como mudar aquelas componentes indesejáveis
A grande questão é de como se há-de promover tais mudanças culturais. Como disse, existe hoje bastante conhecimento sobre técnicas e metodologias para alavancar mudanças culturais. Tais métodos visam refazer as redes neuronais que levam cada um ao seu entendimento do mundo e das coisas, levando-o a adoptar outras formas de o fazer. Quando se trata de sociedades, os meios de comunicação social podem desempenhar um papel relevante no pôr em causa as velhas certezas e no forjar das novas realidades.
Mas profundas alterações no modo como a sociedade portuguesa desenvolve as suas actividades económicas e sociais é, para mim, a chave da questão, o que é realmente necessário para assegurar que as novas realidades se entranhem. Daí que entenda ser fundamental a adopção de dois conjuntos de medidas, em simultâneo.
Um primeiro relacionado com as classes dirigentes, porque a liderança é nesta questão um ponto fundamental, como bem o sabe o povo. Os líderes, como disse, emitem sinais que condicionam o comportamento dos seguidores. Ora uma boa fatia das nossas classes dirigentes, e não só políticas, ou até públicas, mas também privadas, como associações patronais e sindicais, é pouco capaz ou serve-se em lugar de servir. Grande parte é gente pequena, empoleirada em alturas em que se têm de proteger das vertigens.
Haveria que criar condições para que os bons que nelas restam, procurem arrebanhar aqueles que ainda se possam corrigir; que criar condições para que se promovam organizações cívicas, para além dos partidos, afim de gerar novas elites. E haveria que as preparar para contribuírem para a necessária mudança cultural.
Não é tarefa fácil dado o estado de deterioração atingido, pelos muitos telhados de vidro que inibem muitos. Sem resolver este particular aspecto, será difícil uma ampla mobilização. Mas muita coisa se pode e tem de fazer, até apara o apoio ao segundo conjunto de medidas que proponho.
E este segundo conjunto de medidas é a receita liberal: o reduzir drasticamente o aparelho do estado, o aumentar a sua credibilidade e o seu desempenho; o entregar muitas das actuais funções do estado a organizações da sociedade civil; o fomentar um mercado mais livre e concorrencial, em que não se temam as boas gestões estrangeiras − que a independência de uma nação é a das almas dos seus cidadãos e não o do controlo de pseudo centros de decisão económica −.
Seria um crescimento doloroso, estou certo, mas ajudaria a mudar a postura da mulher e do homem português para atitudes mais consentâneas com a sua sobrevivência futura.
Pautando-me, em teoria, por outros catecismos, reconheço ser este o remédio apropriado para o momento nacional.
A ser assim, seria bom que a esquerda abandonasse ideias e vestes do passado, que procurasse vias para evitar ou minorar os reconhecidos efeitos secundários do remédio, e que cuidasse de lhe encontrar alternativas credíveis para o futuro. Pessoalmente, penso que devia pugnar para que os actuais serviços estatais de educação, saúde, de solidariedade fossem sendo progressivamente apropriados por organizações locais radicadas nos seus principais utentes. Penso que deveria pugnar para que se criassem organizações cívicas de cidadania com real poder de intervenção a nível local. Fundamentalmente, contribuir para a criação de um espírito cívico, de solidariedade e de independência no cidadão português.
Seria bom todos acordarmos para o impacto que a cultura tem no nosso futuro. Ignorá-la é escolher a via mais difícil e, portanto, custosa de fazer mudanças. Mas é, sobretudo, aumentar o risco de cometer erros graves na tomada de decisão política. Como no exemplo do prolongar no tempo do imposto da SISA, que acima se viu.
quinta-feira, fevereiro 02, 2006
A CULTURA NACIONAL, CAUSA PRIMEIRA (4)
3. Componentes da cultura nacional que importa mudar (continuação)
Outras importantes características também fortemente vincadas da nossa cultura, já enunciadas por um Verney, por um Antero de Quental, por um António Sérgio, e por vários escritores e ensaístas do século passado são a excessiva dependência homem português e o seu elevado grau de colectivismo. Por um lado, passivo, submisso, dependente, nunca assumido − Jorge de Sena dizia que “o homem português nunca cortou o cordão umbilical” −, característica designada por Hofsted como feminilidade. Por outro, colectivista − significando-se com tal que ele procura a protecção de grupos que lhe defendam os interesses[1] −.
A feminilidade alia-se e potencia a já referida dificuldade dele lidar com o futuro.
O elevado colectivismo indu-lo a constituir grupos que visam mais o defender-se do futuro, que a agir para o aproveitar ou para o procurar influir. Este colectivismo, que também se observa em elevadas proporções noutros povos, como o japonês[2], não é de molde a aproveitar o actual evoluir das sociedades. Na realidade, as sociedades mais individualistas, como a sueca, a australiana e a estado unidense, podem, porque permitem um evoluir mais flexível, em termos darwinistas, responder melhor às profundas alterações provocadas pelo elevado crescimento do conhecimento. Talvez que este factor não seja alheio à estagnação da economia japonesa a partir dos anos de 1990.
Também aqui importa acelerar a mudança destas componentes culturais.
Seria importante mudar outras características culturais, mas, em meu entender, com um menor impacto no nosso futuro enquanto nação.
3. Componentes da cultura nacional que importa mudar (continuação)
Outras importantes características também fortemente vincadas da nossa cultura, já enunciadas por um Verney, por um Antero de Quental, por um António Sérgio, e por vários escritores e ensaístas do século passado são a excessiva dependência homem português e o seu elevado grau de colectivismo. Por um lado, passivo, submisso, dependente, nunca assumido − Jorge de Sena dizia que “o homem português nunca cortou o cordão umbilical” −, característica designada por Hofsted como feminilidade. Por outro, colectivista − significando-se com tal que ele procura a protecção de grupos que lhe defendam os interesses[1] −.
A feminilidade alia-se e potencia a já referida dificuldade dele lidar com o futuro.
O elevado colectivismo indu-lo a constituir grupos que visam mais o defender-se do futuro, que a agir para o aproveitar ou para o procurar influir. Este colectivismo, que também se observa em elevadas proporções noutros povos, como o japonês[2], não é de molde a aproveitar o actual evoluir das sociedades. Na realidade, as sociedades mais individualistas, como a sueca, a australiana e a estado unidense, podem, porque permitem um evoluir mais flexível, em termos darwinistas, responder melhor às profundas alterações provocadas pelo elevado crescimento do conhecimento. Talvez que este factor não seja alheio à estagnação da economia japonesa a partir dos anos de 1990.
Também aqui importa acelerar a mudança destas componentes culturais.
Seria importante mudar outras características culturais, mas, em meu entender, com um menor impacto no nosso futuro enquanto nação.
(continua)
[1] Os povos do norte da europa e os anglo-saxónicos são mais individualistas, significando este termo que cada um assume nas suas mãos o seu futuro, sem necessidade de recorrer ao apoio do estado, família ou grupos de interesse. António Sérgio designava esta atitude de singularismo, optando por designar o colectivismo por comunitarismo.
[2] As razões para o colectivismo japonês são diversas das portuguesas. Terão essencialmente a ver com o manter de características da sociedade feudal anterior à 2.ª guerra mundial, na posterior sociedade industrial.
quarta-feira, fevereiro 01, 2006
A CULTURA NACIONAL, CAUSA PRIMEIRA (3)
3. Componentes da cultura nacional que importa mudar
Aborde-se agora o que considero as características mais inadequadas do povo português face ao momento histórico que atravessa.
A cultura portuguesa foi particularmente dissecada e debatida, a partir do século XIX, por homens de cultura e escritores. Actualmente, existem estudos internacionais que a comparam com a de outros países.
Sabemos hoje uma das características fortemente vincadas da nossa cultura é a dificuldade em lidar com a incerteza do que pode acontecer no futuro, vulgarmente dita como aversão ao risco.
Esta é a razão por que temos dificuldade em planear: é que planear implica o estabelecer de objectivos, estados que se pretendem atingir no futuro; o português arreceia-se de a tal se arriscar e com tal se comprometer; prefere deixar andar, supor que o vai acontecer amanhã é o mesmo que aconteceu ontem; o resultado é o ter de desenrascar, normalmente com custos mais elevados. À escala nacional, eu diria que é o que explica a nossa situação económica neste momento: as classes dirigentes, desde 1985, não planearam em termos estratégicos o futuro da nação, não estabeleceram os grandes objectivos nacionais em termos de sobrevivência e prosperidade, subordinaram-se aos interesses instalados − interesses estes que são necessariamente interesses do passado e, por isso, muitos deles não adequados às necessidades futuras −, deixaram andar e, agora, parece querer desenrascar.
Sabemos que as empresas bem sucedidas, a partir dos anos de 1960, passaram a efectuar o seu planeamento, não tanto em função do passado, mas mais das ameaças e das oportunidades que anteviam no seu futuro. E para o fazer, desenvolveram metodologias adequadas. Tal deveu-se ao crescente aumento do conhecimento humano e, particularmente, às tecnologias de informação e de comunicação, os reais facilitadores da globalização. Tal implicou que cada empresa deparasse sistematicamente com novos produtos concorrentes, com o encurtar dos respectivos ciclos de vida e, também, com novos concorrentes que se apresentavam vindos de algures. Ou seja, o futuro tinha deixado de ser para ela um mero prolongamento do passado como até então o fora.
Hoje, este fenómeno, estende-se a toda a sociedade: o futuro comanda cada vez mais as nossas acções no presente. E, contudo, a nossa cultura, é cunhada, como vimos pelas nossas anteriores vivências, pelo passado. Assim, temos de mudar mais frequentemente e mais profundamente, mas a nossa cultura dificulta-o. As empresas, nomeadamente as estado unidenses, investiram no investigar de como se deve lidar com a resistência que a cultura coloca à mudança, e hoje existe um corpo de conhecimento razoável sobre como o fazer.
Colocada a dificuldade do português em lidar com a incerteza do futuro e compreendido o importante que é agir no presente mais em função dele, no mundo actual, compreende-se a necessidade melhor a necessidade imperiosa de acelerar a mudança desta nossa componente cultural.
3. Componentes da cultura nacional que importa mudar
Aborde-se agora o que considero as características mais inadequadas do povo português face ao momento histórico que atravessa.
A cultura portuguesa foi particularmente dissecada e debatida, a partir do século XIX, por homens de cultura e escritores. Actualmente, existem estudos internacionais que a comparam com a de outros países.
Sabemos hoje uma das características fortemente vincadas da nossa cultura é a dificuldade em lidar com a incerteza do que pode acontecer no futuro, vulgarmente dita como aversão ao risco.
Esta é a razão por que temos dificuldade em planear: é que planear implica o estabelecer de objectivos, estados que se pretendem atingir no futuro; o português arreceia-se de a tal se arriscar e com tal se comprometer; prefere deixar andar, supor que o vai acontecer amanhã é o mesmo que aconteceu ontem; o resultado é o ter de desenrascar, normalmente com custos mais elevados. À escala nacional, eu diria que é o que explica a nossa situação económica neste momento: as classes dirigentes, desde 1985, não planearam em termos estratégicos o futuro da nação, não estabeleceram os grandes objectivos nacionais em termos de sobrevivência e prosperidade, subordinaram-se aos interesses instalados − interesses estes que são necessariamente interesses do passado e, por isso, muitos deles não adequados às necessidades futuras −, deixaram andar e, agora, parece querer desenrascar.
Sabemos que as empresas bem sucedidas, a partir dos anos de 1960, passaram a efectuar o seu planeamento, não tanto em função do passado, mas mais das ameaças e das oportunidades que anteviam no seu futuro. E para o fazer, desenvolveram metodologias adequadas. Tal deveu-se ao crescente aumento do conhecimento humano e, particularmente, às tecnologias de informação e de comunicação, os reais facilitadores da globalização. Tal implicou que cada empresa deparasse sistematicamente com novos produtos concorrentes, com o encurtar dos respectivos ciclos de vida e, também, com novos concorrentes que se apresentavam vindos de algures. Ou seja, o futuro tinha deixado de ser para ela um mero prolongamento do passado como até então o fora.
Hoje, este fenómeno, estende-se a toda a sociedade: o futuro comanda cada vez mais as nossas acções no presente. E, contudo, a nossa cultura, é cunhada, como vimos pelas nossas anteriores vivências, pelo passado. Assim, temos de mudar mais frequentemente e mais profundamente, mas a nossa cultura dificulta-o. As empresas, nomeadamente as estado unidenses, investiram no investigar de como se deve lidar com a resistência que a cultura coloca à mudança, e hoje existe um corpo de conhecimento razoável sobre como o fazer.
Colocada a dificuldade do português em lidar com a incerteza do futuro e compreendido o importante que é agir no presente mais em função dele, no mundo actual, compreende-se a necessidade melhor a necessidade imperiosa de acelerar a mudança desta nossa componente cultural.
(continua)
terça-feira, janeiro 31, 2006
A CULTURA NACIONAL, CAUSA PRIMEIRA (2)
2. Como se forma e como se muda a cultura
A cultura forja-se das experiências do viver, do superar das dificuldades e traumas, da alegria das conquistas. Em suma, é o passado que a cunha na memória de cada um. Ela adquire-se, pois, pela aprendizagem/vivência que cada membro da sociedade nela faz, seja na família, seja na vizinhança, seja na escola, seja no grupo de amigos, seja no clube, seja na organização onde se trabalha. Este processo de aprendizagem de cada um é condicionado geneticamente pelas características de cada um e é também condicionado pela aprendizagem e pelas experiências vividas anteriormente, nomeadamente as mais traumatizantes.
Damásio diria, eventualmente, que a cultura se entranha em cada um através da formação (e destruição) de redes neuronais, redes que constituiriam os marcadores somáticos do processo decisório. Ou seja, as vivências/aprendizagens de cada um conduziriam à formação de redes de neurónios que condicionariam o processo segundo o qual o indivíduo interpreta a realidade exterior e produz a resposta aos estímulos sentidos.
Numa perspectiva sociológica, convém notar que Marx assentou a sua perspectiva da história na hipótese de que a cultura é condicionada pelo modo de produção da sociedade. Ou seja, a forma como uma comunidade desenvolve a actividade económica tem um grande impacto na sua cultura. Acredito que, se vivesse hoje, encontraria como verdade mais ampla o assentar aquele condicionamento na tecnologia ou tecnologias, latus sensus, empregue pela sociedade.
Cada um reflectir no processo de formação da cultura, procurando em si exemplos que conheça, é um exercício importante para melhor assimilar o seu impacto no devir de uma sociedade. Embora ao longo deste texto vá citando aspectos que contribuem também para tal fim, parece-me importante citar exemplos
Um, o exemplo do impacto negativo que o prolongar do imposto da SISA teve na cultura nacional. Realmente, o prolongar no tempo de imposto tão descabido, permitiu elevadíssimas margens de lucro às empresas do sector, pela via da fuga ao IRC. Ora quando há elevadas margens de lucro, não se necessita do rigor, da boa gestão, como acontece na maioria dos negócios. Tal fomentou, pois, nas empresas do sector, a prática de todas as espécies de desperdícios, de improdutividades, de negociatas de momento, de incompetências, de fraudes. Ora sendo um importante sector de actividade nacional, quem nele trabalha e quem com ele convive oito ou mais horas diárias da sua vida, adquire esses maus procederes e transporta-os para a vida da comunidade. Também a generalizada constatação de que os agentes do estado responsáveis pela avaliação do real valor dos imóveis conviviam bem com a fraude generalizada ao estado, contribuiu, como continua a contribuir em casos similares, para moldar o proceder do homem comum português. Porque a cultura se faz de vivências.
Outros exemplos significativos de como a cultura se faz radicam no forte carácter simbólico dos actos dos dirigentes. Sabe-se que os actos destes têm um profundo impacto nas respectivas sociedades. Não importa tanto o que o chefe diz, como aquilo que ele faz. Que importa que o chefe diga que nos devemos preocupar mais com o planear as coisas se, no dia a dia, tudo o que ele faz é desenrascar? Os seus colaboradores, como ele, tratarão de desenrascar. Ora dar o exemplo não é atributo da grande maioria dos nossos dirigentes, nomeadamente dos da classe política. São sinais incorrectos que são enviados ao homem português e que ele interioriza na sua cultura.
2. Como se forma e como se muda a cultura
A cultura forja-se das experiências do viver, do superar das dificuldades e traumas, da alegria das conquistas. Em suma, é o passado que a cunha na memória de cada um. Ela adquire-se, pois, pela aprendizagem/vivência que cada membro da sociedade nela faz, seja na família, seja na vizinhança, seja na escola, seja no grupo de amigos, seja no clube, seja na organização onde se trabalha. Este processo de aprendizagem de cada um é condicionado geneticamente pelas características de cada um e é também condicionado pela aprendizagem e pelas experiências vividas anteriormente, nomeadamente as mais traumatizantes.
Damásio diria, eventualmente, que a cultura se entranha em cada um através da formação (e destruição) de redes neuronais, redes que constituiriam os marcadores somáticos do processo decisório. Ou seja, as vivências/aprendizagens de cada um conduziriam à formação de redes de neurónios que condicionariam o processo segundo o qual o indivíduo interpreta a realidade exterior e produz a resposta aos estímulos sentidos.
Numa perspectiva sociológica, convém notar que Marx assentou a sua perspectiva da história na hipótese de que a cultura é condicionada pelo modo de produção da sociedade. Ou seja, a forma como uma comunidade desenvolve a actividade económica tem um grande impacto na sua cultura. Acredito que, se vivesse hoje, encontraria como verdade mais ampla o assentar aquele condicionamento na tecnologia ou tecnologias, latus sensus, empregue pela sociedade.
Cada um reflectir no processo de formação da cultura, procurando em si exemplos que conheça, é um exercício importante para melhor assimilar o seu impacto no devir de uma sociedade. Embora ao longo deste texto vá citando aspectos que contribuem também para tal fim, parece-me importante citar exemplos
Um, o exemplo do impacto negativo que o prolongar do imposto da SISA teve na cultura nacional. Realmente, o prolongar no tempo de imposto tão descabido, permitiu elevadíssimas margens de lucro às empresas do sector, pela via da fuga ao IRC. Ora quando há elevadas margens de lucro, não se necessita do rigor, da boa gestão, como acontece na maioria dos negócios. Tal fomentou, pois, nas empresas do sector, a prática de todas as espécies de desperdícios, de improdutividades, de negociatas de momento, de incompetências, de fraudes. Ora sendo um importante sector de actividade nacional, quem nele trabalha e quem com ele convive oito ou mais horas diárias da sua vida, adquire esses maus procederes e transporta-os para a vida da comunidade. Também a generalizada constatação de que os agentes do estado responsáveis pela avaliação do real valor dos imóveis conviviam bem com a fraude generalizada ao estado, contribuiu, como continua a contribuir em casos similares, para moldar o proceder do homem comum português. Porque a cultura se faz de vivências.
Outros exemplos significativos de como a cultura se faz radicam no forte carácter simbólico dos actos dos dirigentes. Sabe-se que os actos destes têm um profundo impacto nas respectivas sociedades. Não importa tanto o que o chefe diz, como aquilo que ele faz. Que importa que o chefe diga que nos devemos preocupar mais com o planear as coisas se, no dia a dia, tudo o que ele faz é desenrascar? Os seus colaboradores, como ele, tratarão de desenrascar. Ora dar o exemplo não é atributo da grande maioria dos nossos dirigentes, nomeadamente dos da classe política. São sinais incorrectos que são enviados ao homem português e que ele interioriza na sua cultura.
(continua)
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