sexta-feira, fevereiro 24, 2006

O ESTADO SOCIAL

Nas sociedades mais desenvolvidas, à medida que a esperança de vida aumenta e à medida que aumenta o conhecimento na área da saúde, os gastos sociais com a segurança social, saúde incluída, têm crescido apreciavelmente acima do PIB. Para lá de ser o Estado ou de serem os cidadãos a pagá-los, a questão de fundo, a de largo prazo, é a de que, a continuar tal ritmo de crescimento, tais custos tornar-se-iam socialmente incomportáveis, já que poderiam atingir, dentro de duas ou três décadas, mais de 40% do PIB.

O mesmo problema se coloca relativamente à educação. O explosivo crescimento do conhecimento implica acentuadas mutações nas sociedades, e um e outras obrigam a um crescendo das necessidades de formação, seja ela inicial, seja ela ao longo da vida. Também aqui, a manterem-se os seus anteriores ritmos de crescimento, os custos tornar-se-iam socialmente incomportáveis, fosse quem fosse a pagá-los.

Em tais circunstâncias, a actual discussão sobre quem paga − se o Estado, se os cidadãos, e em que percentagens −, discussão a que a esquerda se limita e em que a esquerda se limita, tende a iludir a dita questão de fundo, a de encontrar soluções sustentáveis em termos do largo prazo. E os cidadãos, que dizemos repetidamente não serem estúpidos, apercebem-se disto, e julgam assim aperceber-se de que falta à esquerda o sentido de Estado, por não cuidar do futuro.
Ao enfatizar a discussão e ao propor soluções para o agora, ou seja, ao aceitar colocar a questão no mero curto prazo histórico, a esquerda entrega assim de bandeja a credibilidade e os votos ao campo liberal.

Ora estes, por definição, navegam ao sabor das ondas dos momentos. Mas aqui, curiosamente, colocam a questão da impossibilidade de o Estado continuar a pagar a factura do social no futuro. Dão a entender que se preocupam com o futuro. Mas, simultaneamente, cuidam de ocultar que também a sociedade civil a não poderá pagar, se mantiverem os seus ritmos de crescimento em relação ao PIB.
Desta feita, os liberais fazem dois em um: contribuem para a aceitação do seu propósito de desmantelar, ou reduzir apreciavelmente o Estado social; e, ao mesmo tempo, apresentam-se aos cidadãos como os mais responsáveis pelo assegurar da sustentabilidade do Estado em termos de futuro, como os mais credíveis em termos de governação.

E os cidadãos não se apercebem de que só fica garantida a sustentabilidade do Estado que os liberais entendem dever ser mínimo, não ficando garantido que a sociedade civil possa arcar com o ritmo de crescimento das referidas despesas.

O rigor deveria obrigar a traçar diferentes cenários de evolução para diferentes soluções que se aventassem e se imaginassem. E só depois de ter meditado sobre tais cenários se deveriam tratar das respostas a dar a no curto/médio prazo.

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

REPETE LÁ OUTRA VEZ

Tonho saiu da prisão e emprenhou num baile a Graziela. Teve um filho José.

José não foi carpinteiro, nem foi político. Assim, não tratou do lenho, sagrado ou não, nem se arranjou com vigarices legais. Preencheu-se com a rua, com a preguiça, com o vício, com o tráfico, com a prisão, por esta exacta ordem?

José saiu da prisão e emprenhou numa discoteca a …

terça-feira, fevereiro 07, 2006

SOBRE O QUE BLOGO

Necessariamente sobre mim e os espelhos que me rodeiam. Preocupa-me mais a política, a pintura e a poesia, mas também a literatura que não de cordel.
E isto deve bastar ao http://blogsearch.google.com/.
A LATA DE FERMENTO ROYAL


Nos meus cinco anos, cirandava em torno de minha mãe quando ela se propunha fazer um bolo. E a lata lá estava, com o seu rótulo vermelho. Rótulo vermelho onde havia um círculo no qual figurava a imagem da própria lata! E eu mergulhava no círculo, na lata dentro deste, no círculo desta, na lata ainda mais pequena que lá estava, no círculo desta e continuava sempre, sempre.

Caía em mim e reparava que, afinal, às tantas havia um minúsculo círculo já nada continha. Perplexo e angustiado pela incapacidade do designer, tratava de rapar a massa adocicada que restara na malga onde o bolo fora preparado.

Descobrira o infinito e a impossibilidade de o representar, tudo numa lata de fermento Royal!

A lata e o seu rótulo foram-me perseguindo na vida. Quando me ensinaram filosófica e matematicamente o que era o infinito, eles estiveram contudo ausentes. Mais tarde, muito mais tarde, terei produzido umas quaisquer ligações neuronais, ligações que, segundo Damásio e outros entendidos, condicionam o sentimento e o entendimento, e que me levaram a compreender que aos cinco anos de idade descobrira o infinito, como coisa real, por fora.

Mas a lata e o seu rótulo continuaram a fazer questão em não me abandonar. Li filosofias, religiões, yogas e quejandos. Aprendi que alegrias e cabeçadas neste caminho terreno eram o karma que desvendava o conhecimento que em mim já havia. Mas só hoje, hoje mesmo, quando tomava o meu prosaico duche, produzi mais umas quantas ligações neuronais, percebi que o infinito estivera sempre em mim e que descobri-lo aos cinco anos de idade não foi coisa de monta.

A lata e o seu rótulo foram o seu mero espelho, o espelho do infinito, como coisa real, por dentro.

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

LER DEPRESSA

Miúdo ainda, devorava livros de todas as formas, feitios e géneros. Aos 12 anos dei como comigo a ler o Robinson Crusoé. Seguiram-se a colecção Vampiro e todo o Emílio Salgari, um ritmo vertiginoso. Quando me perguntaram como conseguia ler tantos livros, respondia: “Gosto de acção! Só leio os diálogos!”.

Hoje, um colega e amigo contou-me que um antigo professor, o Manuel Miranda, responsável então pela disciplina de Mecânica Racional na Faculdade de Ciências do Porto, teria explicado aos alunos como lia um romance em menos de meia hora, nem que fosse o Ulisses, do James Joyce: começa-se por ler as últimas páginas, para ver como acaba a história; então lê-se as primeiras para se perceber quem é quem; se restarem dúvidas, lê-se algumas do meio…

sábado, fevereiro 04, 2006

AS CARICATURAS DE MAOMÉ

No grão dia singular,
que na lira o douto som
Hierusalém celebrar,
lembrai-Vos de castigar
os ruins filhos de Edom.
Aqueles que tintos vão
no pobre sangue inocente,
soberbos co’ o poder vão,
arraisai-os igualmente:
conheçam que humanos são.

Luís de Camões,
Abel e Sião

Nietzsche compreendeu que Deus deixara de ser enquanto realidade imposta, compreendeu que passara a estar entre nós, em nós, no acompanhar do movimento universal da democratização. Os Mandamentos foram sustituídos, mais tarde, pela Declaração Universal dos Direitos do Homem. E, nas sociedades ocidentais, a que me refiro, os valores são cada vez mais os que cada um constrói para viver.

O caricaturar do Papa, de Cristo, da Senhora ou dos santos, não é pois tomado como real ofensa àqueles, mas antes num sentido metafórico, essencialmente ligado ao facto que se pretende criticar. Porque não respeitam os muçulmanos esta nossa cultura?

Fez bem a Dinamarca em não apresentar desculpas, fizeram mal alguns menos reflexivos dos nossos em censurar “o ferir a susceptibilidade dos muçulmanos”. Cada comunidade tem a sua cultura que deve ser respeitada certamente. Por isso mesmo, os muçulmanos deveriam aceitar que, na nossa cultura, caricaturar Maomé não contém a intenção de o ofender, de os ofender.

As cenas primitivas a que vimos assistindo por parte das comunidades islamitas só mostram a sua dificuldade em tolerar a diferença, em aceitar a democracia e isto num mundo em globalização e democratização. É um prenúncio do seu estertor, de uma desadequação a este novo mundo, como o é o do terrorismo do Sr. Bin Laden.

Coisas do passado que nos atormentam no presente, é certo. Mas que não são adequadas ao futuro e que por isso não sobreviverão.

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

A CULTURA NACIONAL, CAUSA PRIMEIRA (5)

4. Como mudar aquelas componentes indesejáveis

A grande questão é de como se há-de promover tais mudanças culturais. Como disse, existe hoje bastante conhecimento sobre técnicas e metodologias para alavancar mudanças culturais. Tais métodos visam refazer as redes neuronais que levam cada um ao seu entendimento do mundo e das coisas, levando-o a adoptar outras formas de o fazer. Quando se trata de sociedades, os meios de comunicação social podem desempenhar um papel relevante no pôr em causa as velhas certezas e no forjar das novas realidades.

Mas profundas alterações no modo como a sociedade portuguesa desenvolve as suas actividades económicas e sociais é, para mim, a chave da questão, o que é realmente necessário para assegurar que as novas realidades se entranhem. Daí que entenda ser fundamental a adopção de dois conjuntos de medidas, em simultâneo.

Um primeiro relacionado com as classes dirigentes, porque a liderança é nesta questão um ponto fundamental, como bem o sabe o povo. Os líderes, como disse, emitem sinais que condicionam o comportamento dos seguidores. Ora uma boa fatia das nossas classes dirigentes, e não só políticas, ou até públicas, mas também privadas, como associações patronais e sindicais, é pouco capaz ou serve-se em lugar de servir. Grande parte é gente pequena, empoleirada em alturas em que se têm de proteger das vertigens.
Haveria que criar condições para que os bons que nelas restam, procurem arrebanhar aqueles que ainda se possam corrigir; que criar condições para que se promovam organizações cívicas, para além dos partidos, afim de gerar novas elites. E haveria que as preparar para contribuírem para a necessária mudança cultural.
Não é tarefa fácil dado o estado de deterioração atingido, pelos muitos telhados de vidro que inibem muitos. Sem resolver este particular aspecto, será difícil uma ampla mobilização. Mas muita coisa se pode e tem de fazer, até apara o apoio ao segundo conjunto de medidas que proponho.

E este segundo conjunto de medidas é a receita liberal: o reduzir drasticamente o aparelho do estado, o aumentar a sua credibilidade e o seu desempenho; o entregar muitas das actuais funções do estado a organizações da sociedade civil; o fomentar um mercado mais livre e concorrencial, em que não se temam as boas gestões estrangeiras − que a independência de uma nação é a das almas dos seus cidadãos e não o do controlo de pseudo centros de decisão económica −.
Seria um crescimento doloroso, estou certo, mas ajudaria a mudar a postura da mulher e do homem português para atitudes mais consentâneas com a sua sobrevivência futura.

Pautando-me, em teoria, por outros catecismos, reconheço ser este o remédio apropriado para o momento nacional.
A ser assim, seria bom que a esquerda abandonasse ideias e vestes do passado, que procurasse vias para evitar ou minorar os reconhecidos efeitos secundários do remédio, e que cuidasse de lhe encontrar alternativas credíveis para o futuro. Pessoalmente, penso que devia pugnar para que os actuais serviços estatais de educação, saúde, de solidariedade fossem sendo progressivamente apropriados por organizações locais radicadas nos seus principais utentes. Penso que deveria pugnar para que se criassem organizações cívicas de cidadania com real poder de intervenção a nível local. Fundamentalmente, contribuir para a criação de um espírito cívico, de solidariedade e de independência no cidadão português.
Seria bom todos acordarmos para o impacto que a cultura tem no nosso futuro. Ignorá-la é escolher a via mais difícil e, portanto, custosa de fazer mudanças. Mas é, sobretudo, aumentar o risco de cometer erros graves na tomada de decisão política. Como no exemplo do prolongar no tempo do imposto da SISA, que acima se viu.

quinta-feira, fevereiro 02, 2006

A CULTURA NACIONAL, CAUSA PRIMEIRA (4)

3. Componentes da cultura nacional que importa mudar (continuação)

Outras importantes características também fortemente vincadas da nossa cultura, já enunciadas por um Verney, por um Antero de Quental, por um António Sérgio, e por vários escritores e ensaístas do século passado são a excessiva dependência homem português e o seu elevado grau de colectivismo. Por um lado, passivo, submisso, dependente, nunca assumido − Jorge de Sena dizia que “o homem português nunca cortou o cordão umbilical” −, característica designada por Hofsted como feminilidade. Por outro, colectivista − significando-se com tal que ele procura a protecção de grupos que lhe defendam os interesses[1] −.
A feminilidade alia-se e potencia a já referida dificuldade dele lidar com o futuro.
O elevado colectivismo indu-lo a constituir grupos que visam mais o defender-se do futuro, que a agir para o aproveitar ou para o procurar influir. Este colectivismo, que também se observa em elevadas proporções noutros povos, como o japonês[2], não é de molde a aproveitar o actual evoluir das sociedades. Na realidade, as sociedades mais individualistas, como a sueca, a australiana e a estado unidense, podem, porque permitem um evoluir mais flexível, em termos darwinistas, responder melhor às profundas alterações provocadas pelo elevado crescimento do conhecimento. Talvez que este factor não seja alheio à estagnação da economia japonesa a partir dos anos de 1990.
Também aqui importa acelerar a mudança destas componentes culturais.

Seria importante mudar outras características culturais, mas, em meu entender, com um menor impacto no nosso futuro enquanto nação.
(continua)

[1] Os povos do norte da europa e os anglo-saxónicos são mais individualistas, significando este termo que cada um assume nas suas mãos o seu futuro, sem necessidade de recorrer ao apoio do estado, família ou grupos de interesse. António Sérgio designava esta atitude de singularismo, optando por designar o colectivismo por comunitarismo.
[2] As razões para o colectivismo japonês são diversas das portuguesas. Terão essencialmente a ver com o manter de características da sociedade feudal anterior à 2.ª guerra mundial, na posterior sociedade industrial.

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

A CULTURA NACIONAL, CAUSA PRIMEIRA (3)

3. Componentes da cultura nacional que importa mudar

Aborde-se agora o que considero as características mais inadequadas do povo português face ao momento histórico que atravessa.

A cultura portuguesa foi particularmente dissecada e debatida, a partir do século XIX, por homens de cultura e escritores. Actualmente, existem estudos internacionais que a comparam com a de outros países.

Sabemos hoje uma das características fortemente vincadas da nossa cultura é a dificuldade em lidar com a incerteza do que pode acontecer no futuro, vulgarmente dita como aversão ao risco.
Esta é a razão por que temos dificuldade em planear: é que planear implica o estabelecer de objectivos, estados que se pretendem atingir no futuro; o português arreceia-se de a tal se arriscar e com tal se comprometer; prefere deixar andar, supor que o vai acontecer amanhã é o mesmo que aconteceu ontem; o resultado é o ter de desenrascar, normalmente com custos mais elevados. À escala nacional, eu diria que é o que explica a nossa situação económica neste momento: as classes dirigentes, desde 1985, não planearam em termos estratégicos o futuro da nação, não estabeleceram os grandes objectivos nacionais em termos de sobrevivência e prosperidade, subordinaram-se aos interesses instalados − interesses estes que são necessariamente interesses do passado e, por isso, muitos deles não adequados às necessidades futuras −, deixaram andar e, agora, parece querer desenrascar.
Sabemos que as empresas bem sucedidas, a partir dos anos de 1960, passaram a efectuar o seu planeamento, não tanto em função do passado, mas mais das ameaças e das oportunidades que anteviam no seu futuro. E para o fazer, desenvolveram metodologias adequadas. Tal deveu-se ao crescente aumento do conhecimento humano e, particularmente, às tecnologias de informação e de comunicação, os reais facilitadores da globalização. Tal implicou que cada empresa deparasse sistematicamente com novos produtos concorrentes, com o encurtar dos respectivos ciclos de vida e, também, com novos concorrentes que se apresentavam vindos de algures. Ou seja, o futuro tinha deixado de ser para ela um mero prolongamento do passado como até então o fora.
Hoje, este fenómeno, estende-se a toda a sociedade: o futuro comanda cada vez mais as nossas acções no presente. E, contudo, a nossa cultura, é cunhada, como vimos pelas nossas anteriores vivências, pelo passado. Assim, temos de mudar mais frequentemente e mais profundamente, mas a nossa cultura dificulta-o. As empresas, nomeadamente as estado unidenses, investiram no investigar de como se deve lidar com a resistência que a cultura coloca à mudança, e hoje existe um corpo de conhecimento razoável sobre como o fazer.
Colocada a dificuldade do português em lidar com a incerteza do futuro e compreendido o importante que é agir no presente mais em função dele, no mundo actual, compreende-se a necessidade melhor a necessidade imperiosa de acelerar a mudança desta nossa componente cultural.
(continua)

terça-feira, janeiro 31, 2006

A CULTURA NACIONAL, CAUSA PRIMEIRA (2)

2. Como se forma e como se muda a cultura

A cultura forja-se das experiências do viver, do superar das dificuldades e traumas, da alegria das conquistas. Em suma, é o passado que a cunha na memória de cada um. Ela adquire-se, pois, pela aprendizagem/vivência que cada membro da sociedade nela faz, seja na família, seja na vizinhança, seja na escola, seja no grupo de amigos, seja no clube, seja na organização onde se trabalha. Este processo de aprendizagem de cada um é condicionado geneticamente pelas características de cada um e é também condicionado pela aprendizagem e pelas experiências vividas anteriormente, nomeadamente as mais traumatizantes.
Damásio diria, eventualmente, que a cultura se entranha em cada um através da formação (e destruição) de redes neuronais, redes que constituiriam os marcadores somáticos do processo decisório. Ou seja, as vivências/aprendizagens de cada um conduziriam à formação de redes de neurónios que condicionariam o processo segundo o qual o indivíduo interpreta a realidade exterior e produz a resposta aos estímulos sentidos.
Numa perspectiva sociológica, convém notar que Marx assentou a sua perspectiva da história na hipótese de que a cultura é condicionada pelo modo de produção da sociedade. Ou seja, a forma como uma comunidade desenvolve a actividade económica tem um grande impacto na sua cultura. Acredito que, se vivesse hoje, encontraria como verdade mais ampla o assentar aquele condicionamento na tecnologia ou tecnologias, latus sensus, empregue pela sociedade.

Cada um reflectir no processo de formação da cultura, procurando em si exemplos que conheça, é um exercício importante para melhor assimilar o seu impacto no devir de uma sociedade. Embora ao longo deste texto vá citando aspectos que contribuem também para tal fim, parece-me importante citar exemplos

Um, o exemplo do impacto negativo que o prolongar do imposto da SISA teve na cultura nacional. Realmente, o prolongar no tempo de imposto tão descabido, permitiu elevadíssimas margens de lucro às empresas do sector, pela via da fuga ao IRC. Ora quando há elevadas margens de lucro, não se necessita do rigor, da boa gestão, como acontece na maioria dos negócios. Tal fomentou, pois, nas empresas do sector, a prática de todas as espécies de desperdícios, de improdutividades, de negociatas de momento, de incompetências, de fraudes. Ora sendo um importante sector de actividade nacional, quem nele trabalha e quem com ele convive oito ou mais horas diárias da sua vida, adquire esses maus procederes e transporta-os para a vida da comunidade. Também a generalizada constatação de que os agentes do estado responsáveis pela avaliação do real valor dos imóveis conviviam bem com a fraude generalizada ao estado, contribuiu, como continua a contribuir em casos similares, para moldar o proceder do homem comum português. Porque a cultura se faz de vivências.

Outros exemplos significativos de como a cultura se faz radicam no forte carácter simbólico dos actos dos dirigentes. Sabe-se que os actos destes têm um profundo impacto nas respectivas sociedades. Não importa tanto o que o chefe diz, como aquilo que ele faz. Que importa que o chefe diga que nos devemos preocupar mais com o planear as coisas se, no dia a dia, tudo o que ele faz é desenrascar? Os seus colaboradores, como ele, tratarão de desenrascar. Ora dar o exemplo não é atributo da grande maioria dos nossos dirigentes, nomeadamente dos da classe política. São sinais incorrectos que são enviados ao homem português e que ele interioriza na sua cultura.
(continua)

segunda-feira, janeiro 30, 2006

Entendi que seria interessante colocar aqui um texto que fui elaborando sobre a cultura portuguesa e o seu impacto no devir português. A extensão do texto leva a que eu o vá colocando, em partes, ao sabor da vida deste blog.

A CULTURA NACIONAL, CAUSA PRIMEIRA (1)

Surpreendo-me amiudadas vezes em deparar com gente com responsabilidades e uma tremenda ignorância sobre o impacto social da cultura. “Nunca tinha pensado nisso!”, “Realmente…”, são confissões que vou escutando. E a questão é que a causa primeira da actual crise portuguesa é a cultura nacional, a forma de ser dos portugueses, a forma de fazerem as coisas, sempre ignorada por eles, pelas suas elites, pelas suas classes dirigentes. E também o é de uma boa parte da europa, da velha europa, termo que, conforme resulta do que adiante digo, me parece correctíssimo.

Aqueles que pretendam fazer política séria, com rigor, têm a obrigação de compreender como a cultura condiciona o debate e a resolução das questões sociais, políticas e económicas, têm a obrigação de compreender como a cultura se faz e têm a obrigação de compreender como a cultura se muda e de que hoje há conhecimento sobre o acelerar dessa mudança.
Urge mentalizar elites e urge renovar elites, elites que o saibam e o usem no garantir de um futuro para a nação.


1. O que é a cultura

Comecemos antes do mais em situar o que se entende por cultura. A cultura de uma sociedade manifesta-se nas atitudes e nos comportamentos dos seus membros. Daí que os americanos digam, de uma forma simplista, que a cultura é “a forma como fazemos as coisas por aqui”.
Os comportamentos e atitudes resultam das crenças e valores − aquilo em que os membros da dita sociedade acreditam e aquilo a que, embora eventualmente não pratiquem, atribuem importância −. Em muitas sociedades tradicionais, por exemplo, havia a crença de que a velhice significava sabedoria e, nessa medida, os velhos eram particularmente respeitados, através de atitudes e comportamentos ajustados dos demais membros dessas sociedades. Valores e crenças vão-se alterando, embora mais lentamente que as atitudes e comportamentos. Mas existe cada vez mais conhecimento sobre como o fazer.
Por sua vez, valores e crenças assentam em algo mais profundo, as ditas assunções básicas, um conjunto de premissas fundamentais, mais profundamente entranhadas em mecanismos do inconsciente e, por isso mesmo, mais dificilmente modificáveis. Há quem sustente que tal só é possível com a ocorrência de acontecimentos traumatizantes, através de profundo sofrer.
(continua)

domingo, janeiro 29, 2006

quinta-feira, janeiro 26, 2006

O TURISMO RESIDENCIAL

Demorou a entrar nas mentalidades das gentes, mas cá está ele, ao fim de muita labuta de alguns mais preocupados com as vocações do país. Venho a dois reparos. Um sobre nosso permanente evitar do futuro pelas nossas gentes, classes dirigentes − sejam políticas, sejam empresariais − incluídas. Outro sobre a incompetência governativa relativa ao tratar das questões desse mesmo futuro.

Sobre a primeira há que constatar o facto de as classes dirigentes não tomarem atitudes proactivas em relação ao futuro, antes sendo coagidas pelos acontecimentos no presente, o que não lhes permitiu apostar mais cedo no turismo residencial, com tal podendo ter minimizado a actual crise económica.
Uma simples análise estratégica, uma análise SWOT na terminologia anglo-saxónica, sobre as vocações do país, teria ajudado a detectá-lo há alguns anos. Mas nem políticos, nem empresários o fizeram, entretidos que andavam na exploração de passados moribundos. E só ficará de lição, se os visados se aperceberem do disparate − o que duvido, porque lhes falta a necessária capacidade da autocrítica e lhes sobra o provincianismo − ou se, o que vai dar no mesmo, mudarmos os actuais paradigmas culturais e o homem português se tornar independente, capaz de desenhar o seu futuro e de o influir, sem recorrer ao Estado, à família ou às panelas, ou às paróquias, ou outros que lhe aproveitam.

Sobre a incompetência governativa no lidar com as novas questões que se colocam, ela resulta em grande parte da anterior atitude de governantes e altos funcionários. A questão que coloco é bem simples.
Tenho em meu poder um estudo da opinião de cidadãos ingleses e alemães que pretendem comprar casa em Espanha − os cidadãos oriundos do Reino Unido e da Alemanha representam 80% dos cidadãos estrangeiros que aí o fazem −. É um estudo realizado pela maior empresa espanhola de estudos de marketing imobiliário, a Grupoi (www.grupoi.es). Quando olho para o que eles preferem e o que procuram evitar, vejo que serão necessárias medidas legislativas que lhes possibilitem fixar aqui residência rapidamente e de forma permanente, que lhes permitam mover-se facilmente nos nossos meios bancário e segurador, que lhes permitam prover às necessidades eventuais de saúde, etc. E necessário se torna fomentar a existência de toda uma série de serviços de apoio à sua integração em Portugal. Será que o governo e os nossos altos funcionários se preocuparam em estudar o que de necessário se torna fazer ou, como desconfio que irá acontecer, vão andar a reboque das necessidades, emperrando e dificultando o que poderá ser um dos grandes sustentos da nação?

quarta-feira, janeiro 25, 2006

AS NOVAS ELITES

Com Guttemberg o conhecimento multiplicou-se, criou ele a elite do renascimento.

Com a internet, o conhecimento exponencia-se, pertence a cada mulher e a cada homem, desfaz ele as elites que o apropriavam.

As novas elites assentarão no meta-conhecimento e no espírito.

terça-feira, janeiro 24, 2006

ALEGREMENTE ABORTARAM

Entenderam os dignatários da candidatura de Manuel Alegre eleger o aborto como a grande causa a que devem devotar os seus esforços.

Ignoraram o sentido profundo do mais de um milhão que nele votou, ignoraram − aliás nem tal lhes deve ocorrer − a necessidade de se construir organizações que suportem a intervenção cívica, em tempos do necessário reduzir do aparelho do Estado.

Esquerda passadista que não atina realmente com a importância de refazer as suas perspectivas em tempos de neo-liberalismo.

segunda-feira, janeiro 23, 2006

RESCALDO ELEITORAL

Ao pequeno almoço, dizia à minha mulher que instabilidade política poderia vir mais de uma desavença José Sócrates/Manuel Alegre, que de outro lado. Abro o Público e reparo que António Barreto também se inclina para tal opinião.

A questão de fundo, para além dos protagonistas, é o sentimento de muitos portugueses estarem agastados com os partidos, o sentimento de que entidades com tantos vícios, tão fechadas e tão pouco transparentes não bastam para apoiar a construção do futuro. Penso que este sentir vai muito além do milhão de votos que obteve Manuel Alegre.

O mesmo António Barreto dizia, na edição de Domingo do mesmo jornal, que a tarefa do futuro Presidente da República deveria ser sobretudo orientada pela luta contra a corrupção e, portanto, pelo repor de uma justiça operante, baseando-se no Governo para o fazer.
Ora não me parece que ao futuro Presidente da República baste o Governo para reduzir os actuais níveis de corrupção, pelas evidentes ligações que este tem ao partido que o apoia e que por isso lhe colocam constrangimentos.

Para além disso, penso que construir o futuro português implica mais do que o combate à corrupção, que é certamente importante. Temos de procurar na cultura, no modo como fazemos as coisas, as causas do nosso torpor e não que as imputar unicamente à pouca lisura das classes dirigentes. E a grande questão que se coloca é a da drástica redução do peso do Estado, não só na economia, mas no dia a dia da vida da mulher e do homem portugueses. Sem tal redução, os portugueses continuarão dele dependentes, continuarão passivos, continuarão não actuantes. Em tais circunstâncias não há autêntica independência nacional nem há um acentuado progresso nacional, que não meramente económico.
Reduzir o Estado implica mais sociedade civil. Implica mais iniciativa do mercado. Significa, para que nos acautelemos de efeitos nefastos do neo-liberalismo, que haja na sociedade civil organizações de cidadãos capazes de assumir funções hoje na alçada do Estado. Nomeadamente no apoio às actividades de bem-estar e da qualidade de vida dos cidadãos. O reconhecimento efectivo da importância deste papel dos cidadãos, para além dos partidos políticos, permitiria a Portugal dar um salto para uma sociedade mais liberal, mas também mais justa.

Ora Sócrates, contrariamente aos mais que o milhão de votos em Alegre, não parece subscrever esta necessidade de participação dos cidadãos; na sua autenticidade, ele dispensa os cidadãos, como dispensaria a justiça, como dispensaria o Presidente da República, se pudesse; não o digo por mal, mas porque me parece ser essa a sua natureza (que ele, obviamente, tentará combater!). Quanto a Cavaco, por um lado é um homem de serviço, distante dos partidos, o que poderia levá-lo a reconhecer a bondade de organizações cívicas para além dos partidos; por outro, sinto-o um homem só e sem uma cultura sólida, o que disso o afasta.

É neste enquadramento global que Manuel Alegre e o movimento de apoio à sua candidatura se terão de situar, não podendo ou, pelo menos, não devendo, colocar em risco a actual legitimidade governamental.

domingo, janeiro 22, 2006

FOTO MARAVILHOSA N.º 1

Esta e outras fotos, foram-me enviadas por não sei quem e feitas por não sei quem. Aqui fica com a devida vénia.



sábado, janeiro 21, 2006

OUTRA VEZ A INDEPENDÊNCIA NACIONAL


Ao ouvir alegar alguns ditos patriotas sobre a necessidade de manter os centros de decisão de grandes empresas portuguesas em mãos nacionais, pergunto-lhes se tal motivo, para a política prática, não será afinal de secundária importância. Proponho-lhes a ideia de que as razões supremas, nas cousas humanas, devem ser sempre as espirituais: e concluí daí que o nosso povo tem todo o direito de manter-se livre − sem necessidade de distinções quanto a quem controla tais centros − desde que queira realmente sê-lo. O essencial fundamento da independência é que haja nas almas dos portugueses um apego tenaz à autonomia. O remédio para a absorção não é o de mostrar o controlo de decisão de tais empresas: é o de manter nas almas dos cidadãos o amor candente da liberdade. Esse amor (e não as origens dos capitais em tais empresas, nem o propalado poder de decisão, nem os gestores estrangeiros) nos pode defender da absorção espanhola.

Os povos maiores que os seus vizinhos, ou quase tão grandes como os seus vizinhos, conservam naturalmente a independência, como simples efeito do seu tamanho. Não é necessário à nação espanhola um amor à liberdade muito intenso para não ser submetida pela portuguesa: basta-lhe para isso ser maior do que nós. Os portugueses, pelo contrário, não podem dever a autonomia à simples grandeza do seu país; hão-de ser livres, tão-só, pela vontade enérgica de serem livres. Como as nações pequenas, vizinhas de grandes, tem por necessidade ser assim.

É que um certo carácter ou um modo de ser, uma dada atitude do espírito, quando existe, não se pode manifestar num sentido só: manifesta-se em todos e em geral. Quem tem o amor da independência, não o tem somente em relação a A, ou a B, ou a C: exerce-o sempre em relação a tudo. O mesmo espírito de liberdade, que um homem revela com a gente de fora, usa-o com o governo do seu próprio país. Aquela forma de mentalidade que conferiu aos habitantes das montanhas suíças uma tão difícil independência em relação às gentes que os circundavam − não seria essa mesma que deu aos suíços a sua índole republicana? E de igual modo, certas propensões dos portugueses, de que resultou a independência em relação à Espanha, não serão as que mantêm na nossa história, aflorando em crises, a persistente aspiração para as liberdades populares?

Se há, pois, diferenças em relação à Espanha, busquemo-las na alma, e não já no tão propalado controlo dos centros decisórios. Avento que é mais plástico o nosso espírito, mais aberto, mais conciliador e assimilador, que é mais político e mais cívico, mais humanista e mais liberal do que o espírito dos espanhóis; e que, se esta diferença de caracteres se não revelou melhor na nossa história, foi talvez que o influxo dos nossos vizinhos nos desviou da órbita natural e porque faltaram neste país as actividades produtoras em que pudesse apoiar-se uma classe forte, menos dependente do poder do estado. Os dirigentes, no século XIV em Portugal, tiveram almas de marujos, e não de pastores; criaram-se no porto, e não na planura. Ama o espanhol a sua aldeia: parece, porém, menos acessível do que nós o somos a um largo interesse pela coisa pública. É que nascemos para as instituições livres; é-nos necessária, a nós, a liberdade de discussão. O que falta, agora, é educar esse interesse espontâneo: torná-lo instruído das questões técnicas, dar-lhe um programa de realizações positivas, carrilá-lo enfim para as soluções concretas dos problemas económico-sociais. Fez-se a República com paixões e retórica: cumpre agora refazê-la com verdadeiras ideias, − e com tacto e senhorio de si…Mas não divaguemos. Volto à minha: quem quer no povo de Portugal instintos de liberdade em relação a outros países, − para uso externo, − tem de apreciar a liberdade em si, e para uso interno. Não será assim?


N. B. − Este texto é uma adaptação (muito ligeira!) de um outro que António Sérgio escreveu em Paris, em 1927, e está publicado nas suas Notas Políticas (incluídas no tomo III dos seus Ensaios). A independência a que ele se referia, então, era à fronteiriça, à da absorção territorial de Portugal por Espanha, coisa mais grave que a dos centros decisórios. Para além disso, cortei algumas partes do texto não adequadas ao momento presente e que em nada alteram nem o sentido nem as teses nele enunciadas.
Mas quando os nossos políticos pretendem que tais centros decisórios são fundamentais à independência que propalam, pergunto-me se não estão a vender barato bens nacionais a “mãos nacionais”, “mãos” essas que daqui a uns anos os comercializarão a estrangeiros com boas mais valias… Não teria a nação mais proveito, se desde já as vendesse o próprio Estado com tais mais valias a esses estrangeiros? Ou há políticos ganham também com aquela negociata?

sexta-feira, janeiro 20, 2006

AS REFLEXÕES DE SÃO JOSÉ ALMEIDA

Não se trata, penso, de um santo, mas tão só de uma cronista do Público, que reflectiu na edição de hoje deste diário. Respigo as reflexões que mais interessam ao que venho.

Primeiramente, a seguinte: “… que se prende com as consequências do campear de um individualismo feroz na sociedade portuguesa pós-25 de Abril, sem dimensão social e sem espírito público, responsável pela relativização ética da política portuguesa e pelo alastrar de uma promiscuidade corrupta que mina a sociedade.”

Logo de seguida: “… a inexistência de um projecto ou melhor de projectos de esquerda para a sociedade portuguesa. A esquerda portuguesa tem-se limitado a viver superficialmente da máquina do Estado à sombra de um clientelismo boçal − no que, aliás, convenhamos, é igualada pela direita − e sem cuidar em fazer a mínima reflexão teórica, sem se preocupar em debater coisa alguma, sem investir na busca de um modelo de desenvolvimento para o país, que ultrapasse a receita gasta e estafada introduzida por Cavaco Silva no início dos anos 90, a qual assenta exclusivamente nas obras públicas. Um projecto que repense e dinamize o papel do Estado, sem os mitos propagandísticos neoliberais de que é possível existir uma sociedade sem regulação estatal, ou que esta deve ser reduzida à sua ínfima expressão, numa espécie de reedição contemporânea do lassez faire lassez passer em que o lucro é o único valor. Quando vai a esquerda enterrar os cantos de sereia do pós-modernismo?”

Tem razão a cronista. Mas a constatação é estafada, lida e relida, dita e redita, a nada conduz.

Nada tenho de pessoal contra esta cronista, nem contra tantos outros que desta forma polulam na nossa imprensa. A verdade, porém, é que o país necessita de melhor. Precisa de cronistas que constatem coisas novas, que se abalancem noutras perspectivas e, sobretudo, que não se deixem arrastar pelo voo fácil da constatação superficial e analisem mais profundamente as causas do constatado e lhe proponham soluções.