segunda-feira, fevereiro 26, 2007

sábado, fevereiro 24, 2007

SOLIDÃO 1

Solidão não é a falta de gente para conversar, namorar, passear ou fazer sexo...
Isto é carência!
Solidão não é o sentimento que experimentamos pela ausência de entes queridos que não podem mais voltar...
Isto é saudade!
Solidão não é o retiro voluntário que a gente se impõe, às vezes para realinhar os pensamentos...
Isto é equilíbrio!
Solidão não é o claustro involuntário que o destino nos impõe compulsoriamente...
Isto é um princípio da natureza!
Solidão não é o vazio de gente ao nosso lado...
Isto é circunstância!
Solidão é muito mais do que isto...
Solidão é quando nos perdemos de nós mesmos e procuramos em vão pela nossa alma.

De uma entrevista do Chico Buarque

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

O NOVO PROCESSADOR DA INTEL

Leio no Jornal de Negócios que a Intel, a maior produtora mundial de processadores para computadores, anuncia ir lançar no mercado, dentro de cinco anos, um microprocessador capaz de realizar um trilião de operações por segundo. Uma coisa que, nuns poucos de milímetros quadrados, faz o trabalho de uns 600 m2 de microprocessadores, de um modelo de há uns dez anos, acrescenta o referido periódico.

Mas porquê só dentro de cinco anos? Supondo que poderia lançar o microprocessador no mercado, já no próximo mês, teriam de existir programas (software) requerendo tal velocidade de processamento, o que não parece acontecer actualmente e nos anos mais próximos.

O mercado que fez desabrochar o computador, ou seja, o que gerou receitas para a sua auto sustentabilidade, não foi o dos equipamentos destinados ao cálculo científico, mas antes o dos equipamentos destinados a processar informação − texto, imagem − construindo conhecimento.

A ser assim, poderemos dizer que o estado de avanço das aplicações informáticas de uso generalizado − é aí que estará a autosustentabilidade da produção e da comercialização de um tal microprocessador − que requererão tais velocidades − como sejam o tratamento do discurso oral e a tradução em tempo real, por exemplo − ainda é precário. Há que acelerá-los, a bem de uma melhor comunicação entre os homens. É uma janela de oportunidade.

Era vulgar dizer-se que a tecnologia (hardware) ia à “frente do homem”. Talvez possamos começar a dizer que também vai à “frente do software”.

Ou talvez tudo isto seja uma mera especulação, e os cinco anos se justifiquem pelas limitações a nível do hardware, ou seja, na construção do próprio microprocessador.
DORMITÓRIO

A NÃO FACILIDADE EM PESSOA

Não sou fácil. Nunca serei fácil.
Não quero poder ser fácil.
Para além disso, tenho dentro
de mim toda a solidão do mundo.

sexta-feira, dezembro 08, 2006

ADEUS A 2006

A impressão dos escritos neste blog, no ano de 2006, suscita-me amargura. Desde o início que mantive o hábito de colocar em papel os escritos do meu blog para melhor os partilhar com uns quantos amigos. Ou porque não se dão com a internet, ou porque preferem ler em papel, ou, ainda, para que fiquem com a versão final do que fui reescrevendo ao longo do tempo. Mas chegado a este final do ano, sinto que escrevi menos do que eles esperariam, do que eu esperaria; ou talvez tudo isto não passe de uma vaidade minha. E isto faz-me sentir o amargo.

Foi um ano violento.
Deixei de fumar, procurando engordar menos do que a maioria dos que fazem o mesmo, e que é coisa que hoje suspeito ser um disparate. Faltou-me o sono e veio-me uma depressão.
Fiz a versão final de um livro de formação em gestão, de que fui o principal co-autor.
Em Setembro morreu, atropelada por um carro ao acaso, a minha filha, a minha grande amiga. A depressão adensou-se e, para não andar a chorar pelos cantos, enfrasquei-me em fármacos que me impedem a lucidez necessária para o bem dar aulas, coisa que, aliás, nunca soube fazer bem.
Outubro trouxe-me um operação à minha mulher e um intensificar do apoio às lides domésticas nos meses seguintes.

No fim de Fevereiro de 2007 penso estar reformado, com mais tempo para escrever e com mais tempo para ser. Com mais tempo para, simplesmente, estar. Então me redimirei.

terça-feira, outubro 17, 2006

ATÉ AMANHÃ, MARGARIDA!

Neste brevíssimo dizer, gostava de começar por agradecer ao Padre Carrara e ao Padre Paulo toda a compreensão e toda a elevação com que nos têm ajudado ao longo dos últimos dias. Bem hajam, Padre Carrara e Padre Paulo!

De seguida, gostava de agradecer à Flora, mãe dos meus filhos, todo o amor e todo o esforço que este exige, e que dia após dia sempre lhes ofereceu. Bem hajas, Flora!

Gostava também de agradecer a fraternidade dos corações de quantos, aqui ou algures, nos estão a apoiar. Bem hajam!

Quanto a ti, Margarida, já foste.

Sei que aproveitaste bem o teu caminho terreno para desenvolver o teu dom divino. A tua exigência em crescer, em servir, em dar, em viver o momento presente mais que o futuro, eram coisas que imparavelmente te admirava e, às vezes, me preocupavam. Por tudo isto, sei que a tua essência se aproxima de Deus e que será um contributo para o Seu reino.

Quero crer que o teu espírito não se limita à sua essência. Quero crer que deixaste um pouquinho dele em cada mulher, em cada homem, em cada ser com que privaste. Que a cada um deixaste um pouquinho dessa energia mágica de que se faz o contacto entre os seres.

A mim, ter-me-á tocado um pedacinho maior, resultado de um amor e de um convívio muito especiais que a ambos nos unia. Quero dizer-te que desse pedacinho, recheado dos encontros e dos desencontros que o fizeram, não farei luto. Regá-lo-ei, como se regam as margaridas e as outras flores, todos os dias.

E procurarei, também com o que me ensinaste, desenvolver mais e melhor o meu dom divino, engrandecendo o Hino da bondade universal.

Até amanhã, filha!

domingo, outubro 15, 2006

A TI

A ti que ajudas na fuga
De si àquele que te tem
A ti que levas amor
A famintos sem ninguém
A ti que me aqueces do frio
E que me enganas a fome
A ti que enches o vazio
Daquilo que não sinto
A ti, pá, uma figa!

A ti que fazes em mil cores
O grito que me vai no peito
A ti que tornas em músicas
Mil desgostos que alimento
A ti, pá, uma figa!

Já ouço vozes alegres
Que gargalham lá fora!
Vamos todos de mãos dadas!

Por ti, vinho, embebedo-me!

Dedicado, com um abraço, ao meu amigo Francisco M Mendonça, que um dia talvez o leia e que das lembranças que lhe traga talvez se sorria.
C. Marques Pinto, Fevereiro de 1973

quinta-feira, setembro 14, 2006

O SABER

Há muitos anos, li, em Cândido, o Ingénuo, de Voltaire, a amargura de um velho sábio pelo muito que ignorava, misturada com a surpresa que sentia pela felicidade da sua também velha vizinha, despreocupadamente ignorante. Antes disso já me tinham ensinado, creio, que quanto mais se sabe, mais se julga pouco saber.

Esta velha questão perseguiu-me pela vida adentro e fico ainda perplexo sobre o se devo parar ou se devo prosseguir no aumentar das minhas angústias, no aumentar da sensação do que ainda me falta saber. E misturo a felicidade de ir descobrindo isto e aquilo, com a frustração que daí resulta.

Porque cada nova descoberta alarga os horizontes e, portanto, multiplica as fronteiras do desconhecimento. E, ao desvendarmos cada uma dessas fronteiras, cada uma multiplicará, por sua vez, os horizontes desconhecidos. E é assim, sucessivamente, até ao infinito.

sexta-feira, agosto 18, 2006

MARCELO CAETANO PELA PENA DE VASCO PULIDO VALENTE

O artigo de VPV, no Público de ontem, evidenciou-me um Marcelo Caetano mais próximo, mais humano, nas suas misérias e nas suas grandezas da história desencontradas.

E senti que o rigor com que VPV e o Público me presentearam esta proximidade, me reconciliou com esse homem, distante de quem sou politicamente.

E sinto que é o rigor com que vemos a proximidade do outro que cria e alimenta a nossa tolerância por ele.

E sinto que andam todos disto distraídos.

E sinto, como Goethe, que "O próximo afasta-se"...

sexta-feira, agosto 04, 2006

GUERRA, TERRORISMO E VALOR DA VIDA

Sinto a justa preocupação de quem é moderado.

O terrorismo não subscreve o valor que a civilização atribui à vida e propagandeia ser Israel quem mata aqueles que colocam no altar a um Deus que sabem não existir, ou teriam mais cautela...

Mas a guerra também não subscreve aquele mesmo valor e é Israel que imola ou a isso é forçado, diferença que, ao que venho, pouco importa.
As tábuas de Moisés a ambos condenam. Os ditos "direitos do homem" (e da mulher?) que, no passado século, as democratizaram, a ambos condenam. E, hoje, qualquer deles constitui um passo à retaguarda na senda da construção de Deus, da construção de Alá.

E sinto que os sistemas que levaram os homens ao disparate naquele, como noutros cantos do mundo, foram também construídos ou tolerados pelos que são moderados, ou assim se julgam.

domingo, julho 09, 2006

CORPO ESGUIO

Do outro lado do mar
Chegam rezas
Do amor e de amores
Rezas sem fim
Encerradas pelo beijo
No sal da saudade

Lembram-me
O corpo esguio
Sentido
Tomado por amor
Aberto que chama
Sobre o amor fechado
Mel que se desfaz saboreado

Lembram-me
O sem sentido
Que o lugar
Qualquer lugar
Então encerra

sexta-feira, junho 16, 2006

A QUEM LER

Se as páginas deste livro consentem algum
verso feliz, perdoe-me o leitor a indelicadeza
de o ter usurpado previamente. Os nossos
nadas pouco diferem; é vulgar e fortuita a
circunstância de que sejas tu o leitor destes
exercícios e eu o seu redactor.”


da introdução de Fervor de Buenos Aires
(J L Borges, Obras Completas, vol. I, ed. Teorema)

domingo, junho 11, 2006

CAVACO E A CULTURA DO PAÍS

Desde o séc. XVI que se foi criando e aprofundando na cultura portuguesa muitos aspectos retrógrados, como inúmeras vezes por aqui tenho dito, apresentando exemplos, estudos e conclusões de quem estudou a questão. Ora um desses aspectos é o do elevado grau de dependência da mulher e do homem portugueses, a sua dificuldade em se assumirem realmente como adultos.

Penso que um político honesto tem de cuidar o reflectir em questões desta grandeza, antes de propor qualquer política global para o país. Por outro lado, creio que Cavaco Silva é um homem honesto e, mais, de rigor.

Assim sendo, que conclusão sobre a defesa que Cavaco fez, em 10 de Junho, de ser da "responsabilidade" de cada português a construção do futuro Portugal? Voltam-me os receios que em tempos aqui manifestei sobre as limitações culturais de Cavaco para assumir a Presidência da República.

Veremos se alguém lhe explica a impossibilidade cultural de tão generoso desejo e ele arranja forma de "dar a volta" ao que disse ou ... se consegue levar a impor um conjunto de medidas que acelerem as mudanças culturais necessárias para tornar possível o que disse (daqui a una anos, é claro, que estas coisas, sendo mais rápidas hoje, ainda levam o seu tempo).

domingo, abril 16, 2006

NÃO HÁ TEMPO

Desço da montanha.

Não tenho a suposta calma do mar profundo.

Aqui, o tempo escoa-se-me por entre os dedos que teclam, furiosa e insanamente, verbos que deviam ser ideias.

Espelhos estilhaçam-se no torvelinho desta mente sem tempo.

E recuso os adornos com que os homens insistem continuadamente em o encobrir.

sábado, abril 15, 2006

OS FRANCESES E A CULTURA “BOTTOM-UP”

Em 1789 a França da Revolução e a intelligentsia que a partir dela se formou, vieram querendo impor ao mundo, de cima, a igualdade. Não há igualdade na natureza, como Darwin bem demonstrou, mas antes a luta constante pela adaptação à sobrevivência. O mundo faz-se pois nessa luta, a partir de baixo, na recusa de vanguardas iluminadas, na luta pela diferença, pelo desigual, pela sobrevivência, pelo continuado aumento do saber. Mas, a par disso, a noosfera requer a solidariedade, a integração dessas diferenças, para que os homens posam construir um futuro cada vez mais complexo, mas também mais harmonioso. Mostra-o a TV, possibilita-o a internet. A luta do homem, hoje e nos tempos vindouros, é a luta pela integração do que é diverso, a construção harmoniosa do todo e não a busca da igualdade de per si.

Nesta justa medida, estão desadequadas as culturas que assentam na realidade e na divindade como coisas reveladas, de fora, como é o caso da França, de grande parte dos países latinos e dos países do norte africano. Atrasarem-se mais ou menos face à evolução do planeta restante, está nas mãos dos seus jovens; o que, nos casos para já conhecidos, parece apontar para um cada vez maior atraso.

quarta-feira, abril 05, 2006

A INCOMPETÊNCIA DOS GESTORES PORTUGUESES

Portugal, segundo diversos relatórios internacionais, deveria estar a travar uma batalha perdida para atrair investimentos estrangeiros. […] Rara tem sido a semana, nos meses mais recentes, em que não foi assinado um contrato ou uma declaração de intenções no valor (dezenas ou mesmo centenas) de milhões de euros: […].

Porque é que os investidores estrangeiros como estes são atraídos para um país que tem o menor índice de produtividade dos 15 Estados-membros da União Europeia anterior ao alargamento? Segundo um relatório recente do Banco de França, talvez seja porque as duas maiores desvantagens de Portugal são a formação laboral e a capacidade de gestão. Outros factores, como infraestruturas, acesso a crédito, estabilidade social e logística, estão altamente cotados, diz o relatório. Empresas que fornecem a formação e a gestão, para suplantar essas duas fraquezas, como é o caso da maior parte dos investidores estrangeiros, obtêm níveis de produtividade dos mais elevados do mundo. [...]


do Courrier Internacional de 31.03.06, citando o Finantial Times

COMENTÁRIO: E o Sr. Sócrates continua convicto de que o Plano Tecnológico é um dos pilares do desenvolvimento nacional. É a cultura, …! No caso presente, as suas vertentes que promovam as necessárias competências para sermos melhores gestores.

terça-feira, abril 04, 2006

EFEMÉRIDE

Surgiu-me e surgiram Rafael e Alfredo que me arrastaram pela humidade das ruas, rumo a alegrias que não sabiam onde encontrar. Não convencido, mais pelo não só, lá fui como que suspenso, detestando-os e agradecendo-lhes.

Não interessa se andamos ou não quarteirões, se por ruas, se por ruelas. Eles tinham de se aportar ao que não sabiam, normalmente ao sabor do excesso de bebida. De fora, naquela cervejaria, vi rostos desconhecidos que celebravam com aparência alegre a efeméride. Abandonei-os contrariados e, chapéu enterrado, mãos enfiadas nos bolsos, empurrei a porta balouçante e entrei. Na algazarra, no fumo, nos braços erguidos com copos, nos rostos sorridentes, meio enjoados, meio cúmplices, nos acenos que me esboçam. Mulheres que se aproximam, que me querem o chapéu, que me querem as mãos enfiadas ainda nos bolsos; que me querem o sobretudo. Recuo assustado, amarelo, sorridente, aparvalhado. Apercebo-me do álcool ocupando o lugar do ar, sinto todo o plástico que me cerca, tudo com a lucidez de quem começa a exaltar os sentidos. Acenei apressada e cobardemente, voltei-me e fugi.

Rafael e Alfredo tinham tido o bom senso de nem sequer entrar. Tinham desaparecido, continuado na sua demanda de alegrias. Estava só. Então uma mulher oferece-me o braço e arrasta-me rua abaixo. Manuela. A Manuela que eu nunca quisera conhecer, por medo de mim; mas que nunca ousara deixar de a ver, anos a fio, paixão escondida, só minha. Continuamos a andar, e por momentos acreditei senti-la saltitar contente ao meu lado, contrastando com o seu aparente andar cadenciado. Fomos.

Barulho num andar por cima de uma porta escancarada a convidar-nos a entrar. Subimos. Uma sala grande de uma casa velha, com um velho soalho de madeira já muito coçada, com uma mesa comprida feita de outras mais pequenas, escondidas por toalhas de tons desconexos e de bibelots também desconexos. Uma sala cheia de gente que acredita na solidez das suas almas e na torpeza das de uns quantos que elegeram como opressores; miúdos rodopiando por todo o lado. “Onde viemos cair, meu Deus!”, desabafei-lhe ao ouvido. Mas ela fez de conta que eu não acreditava no Deus de que falava e acedeu aos instantes convites para nos sentarmos num dos lados do topo da mesa. Vi-me obrigado a largar chapéu e sobretudo. Fiquei-me a procurar ouvir, sem largar a mão da Manuela.

No momento concentravam as atenções numa velha e grande TV, que lhes trazia as glórias, as ilusões do passado de há trinta anos. As flores nas espingardas, o ar imberbe da soldadesca e de uns quantos oficiais. As cerimónias da entronização, não da grande burguesia, mas dos burgueses salazarentos que através do Estado iriam controlar o país, remetendo para caciquismos locais o que seriam sempre as pequenas coisas locais, as da província. Continuavam a crer que fora uma revolução, como talvez o creiam aqueles burgueses agora democraticamente entronizados. Comecei a sentir-me agoniado com aquela mistura de fé e cegueira, da continuada recusa em enfrentar o futuro real.

Sempre fui assim. O social sobrepõe-se ao próximo e este afasta-se − talvez crendo-se maltratado, esquecido −, uma das múltiplas interpretações para o que Goethe disse. E assim me senti. Nunca consegui que os próximos fossem meus espelhos, talvez porque sempre me exigi muito, e creio senti-los pouco dados a outro tanto. Ou talvez porque me tenha habituado aos ares da montanha e do mar profundo e já não saiba vir ao encontro deles.

Manuela percebeu-me a alma, apertou-me a mão, num aperto que me convidava a aceitar mais uns momentos. Seguiu-se, já o esperava, a gravação de então do discurso do grande profeta, sublinhado por calorosas salvas de palmas. Eu suava e imaginava Manuela olhando-me condoída.

Por fim o profeta, talvez condoído de mim e de outros como eu, calou-se. Como que por magia, saltaram comeres e beberes de cestos ocultos sob as toalhas das mesas. Já vivera esta situação uma ou duas vezes, quando jovem; procurava então, em bailes ditos populares, satisfazer outros apetites. Como então e como noutro lado qualquer, tudo era gorduroso.

Levantei-me. Manuela dançava com duas pequenitas em seu redor. As pequenitas foram chamadas a abancar junto das mães. Peguei nos nossos abafos, no meu chapéu, agradeci quase furiosamente e arrastei-a escadas abaixo até à rua. Chapéu posto, vesti-lhe o casaco e vesti-me o sobretudo. Respirei fundo. Meti as mãos nos bolsos. Sem saber o que propor, a não ser fugir.

segunda-feira, março 13, 2006

CAVACO E SÓCRATES

Como já vários disseram, quando houve a relativa certeza de que Cavaco se iria candidatar à Presidência da República, Sócrates terá decidido que lhe conviria governar com ele: terá acreditado sobretudo que assim se criariam condições para levar o seu partido a subscrever medidas necessárias, mas a que o respectivo aparelho se opõe; terá acreditado também que, de certa forma, assim reduziria o que poderia vir a ser o peso do principal partido da oposição, perante as ainda dolorosas medidas de que o país necessita. E, nesta visão, terá conduzido toda a acção do PS nas eleições presidenciais. A ser assim, parece que teríamos de tirar o chapéu à sua mestria política.

E, contudo, as coisas podem não ser tão lineares. Duas coisas movem os homens: as suas acções e o acaso; às vezes mais umas, outras vezes mais o outro. Mas as acções resultam, em grande medida, do profundamente enraizado no espírito de cada um e que dele faz um ser único. E isso constata-se pelas atitudes e comportamentos de cada um; pressente-se nas crenças e nos valores que lhe percebemos.

Nesta perspectiva, vejo um Cavaco que acredita no valor da honestidade e crê nela se enquadrar; cujas decisões são feitas no rigor; que não acredita no acaso e que, talvez por isso, não se alonga no futuro para além de uma meia dúzia de anos.

Também vejo um Sócrates com uma maior crença na sorte, e, também por isso, usando um menor rigor na decisão e tendo uma maior propensão para sonhar o futuro, ou seja, a estender o seu horizonte muito para além da meia dúzia de anos.

Se Sócrates levasse Cavaco a esquecer alguns dos seus bisonhos assessores, a acreditar um pouco mais na sorte e a ver para além da mera meia dúzia de anos; e se Cavaco convencesse Sócrates da imprescindibilidade do rigor na metodologia do pensar e na importância de um povo perceber a honestidade nos seus governantes e instituições, auguraria para Portugal uma próxima década feliz.

Infelizmente, e como acima disse, há coisas que estão profundamente enraizadas em cada homem. E, como assim deverá ser também neste caso, talvez os portugueses venham a ser surpreendidos com conflitos mais ou menos insanáveis entre os dois, com as correspondentes menores eficácia e eficiência de que o país tanto necessita.

Oxalá me engane e, de preferência, redondamente!